Episode 7

T2-7. DIÁRIO DE UM REFÚGIO

DIÁRIO DE UM REFÚGIO, nesse episódio nós trazemos pra ti o dia-a-dia de uma família de imigrantes venezuelanos no Brasil. Pra isso acontecer, nós enviamos um mini-gravador para a familia de Gladeivys Portillo Salazar, de 36 anos, para que eles registrassem suas vidas, suas memórias, seus temores e seus amores. Por 28 dias a família gravou o que lhe ocorresse. Dorka Portillo, a filha de 11 anos, foi a quem mais adorou a experiência de documentar seus pensamentos e emoções e deixar registrado para a sua cápsula do tempo o nome das pessoas que ela ama, o que ela gosta, e o que sente saudades. Quase sem narração, esse episódio te coloca dentro da vida de uma família de imigrantes da Venezuela vivendo no Brasil. Espero que essa experiência te faça alargar as fronteiras de tua empatia compreensão.

CREDITOS:

Esse episódio foi produzido por : ANAÍRA SARMENTO, JEFERSON BATISTA , HELOIZA BARBOSA

Edição: HELOIZA BARBOSA, PAULO PINHEIRO E DIOGO SARAIVA.

Trilha Sonora Original: DIOGO SARAIVA E PAULO PINHEIRO

Trilha Adicional: BLUE DOT SESSIONS

Sound Design: PAULO PINHEIRO

Colaboração no Roteiro: VALQUIRIA GOUVEA

Ilustrações de Capa e Mídia Social: NATÁLIA GREGORINI.

A segunda temporada tem apoio do GOOGLE PODCAST CREATORS PROGRAM E PRX - PUBLIC RADIO EXCHANGE.

Apoia o FAXINA: https://apoia.se/faxinapodcast

Obrigada!


Transcript

DIÁRIO DE UM REFÚGIO

OI! EU SOU HELOIZA BARBOSA E ESSE É O ESPAÇO DE SONS E HISTÓRIAS DO FAXINA PODCAST.

CHEGAMOS AO TERCEIRO E ÚLTIMO EPISÓDIO DA MINISSÉRIE “SONHOS SEM FRONTEIRAS.” NESSA SÉRIE A GENTE SAIU DE BOSTON- EUA E VIAJOU ATÉ O BRASIL PARA OUVIR HISTÓRIAS DE VIDA DE IMIGRANTES QUE RECENTEMENTE BUSCARAM NO BRASIL UMA CASA PARA ABRIGAR SEUS CORPOS, SUAS FAMÍLIAS, SUAS NECESSIDADES NO TEMPO PRESENTE, E SEUS SONHOS NO TEMPO FUTURO.

NOS EPISÓDIOS PASSADOS dessa miniserie, CONTAMOS A HISTÓRIA DE MODOUL KARA, UM IMIGRANTE DO SENEGAL QUE HOJE MORA EM FLORIANÓPOLIS, E A HISTÓRIA DE ABIDULAYE GUIBILA DE BURKINA FASO QUE HOJE MORA NA CIDADE DE SÃO PAULO. SE TU AINDA NÃO OUVIU A HISTÓRIA DELES, DEPOIS VAI LÁ CONFERE PORQUE EU TENHO CERTEZA QUE TU VAIS TER UMA EXPERIÊNCIA MUITO RICA NESSA ESCUTA.

O EPISÓDIO DE HOJE, SERÁ SOBRE UMA FAMÍLIA DE IMIGRANTES DA VENEZUELA QUE ATUALMENTE RESIDEM NO BRASIL. PARA PRODUZIR ESSE EPISÓDIO, EU JUNTO COM A JORNALISTA ANAÍRA SARMENTO PRIMEIRO ENTREVISTAMOS POR ZOOM A GLADEIVYS PORTILLO SALAZAR.

Heloiza: Alô

Gladeivys: Oi Heloiza! Tudo bem

Anaira: Oi! Aqui é Anaíra, eu estava falando com você esses dias por telefone

Gladivys: Oi Anaíra! Tudo bem

Heloiza: Eu quero que você fale teu nome completo…

Gladeivys: Peraí o nome completo. Eu Sou Gladeivys Carolina Portillo Salazar. Eu nasci na Venezuela, no país da Venezuela, no estado Bolívar. O estado mais grande da Venezuela, o Estado Bolívar. Eu tenho 36 anos.

NO BRASIL AS PESSOAS A CHAMAM DE CAROL, MAS ELA PREFERE SER CHAMADA PELO SEU PRIMEIRO NOME GLADEIVYS. GLADEIVYS É UMA MULHER DE OLHAR CALMO E DECIDIDO, SEMPRE MUITO SIMPÁTICA E AMOROSA.

VENEZUELA, MAS EM NOVEMBRO DE:

A FAMÍLIA DE GLADEIVYS PARTICIPOU DO PROGRAMA DE INTERIORIZAÇÃO PROMOVIDO PELO GOVERNO BRASILEIRO E HOJE ELES MORAM EM VINHEDO, UMA CIDADE NO INTERIOR DO ESTADO DE SÃO PAULO.

BOM, DEPOIS DE CONVERSAR COM GLADEIVYS SOBRE SUA HISTÓRIA E A NOVA VIDA NO BRASIL, EU FIQUEI MUITO CURIOSA PARA SABER COMO QUE SEUS FILHOS DORKA E JOSÉ ESTAVAM EXPERIMENTANDO ESSA NOVA IDENTIDADE DE IMIGRANTE. MAS EU NÃO QUERIA OUVIR SOBRE A EXPERIÊNCIA DAS CRIANÇAS PELA MÃE DELES, E TAMBÉM NÃO QUERIA FAZER ENTREVISTA COM AS CRIANÇAS PELO ZOOM, QUE EU ACHO UM MEIO BEM CHATO DE INTERAGIR. FOI AÍ ENTÃO QUE EU TIVE UMA IDEIA BEM LOUCA.

PRIMEIRO EU VI QUE VINHEDO, A CIDADE ONDE ELES MORAM, FICA BEM PERTO DE CAMPINAS. DAÍ EU CONTACTEI JEFERSON BATISTA, UM AMIGO MEU QUE É JORNALISTA E ANTROPÓLOGO E QUE POR SORTE MORA EM CAMPINAS. [entra aqui o audio 1do Jeferson]

ELE TOPOU ME AJUDAR. EU ENTÃO COMPREI UM MINI-GRAVADOR DE ÁUDIO E JEFERSON LEVOU O TAL GRAVADOR PRA FAMÍLIA. [entra aqui o audio 2 do Jeferson]

A ÚNICA DIREÇÃO QUE DEI FOI QUE CADA MEMBRO DA FAMÍLIA, QUE QUISESSE, PODIA FICAR COM O GRAVADOR POR UMA SEMANA, E DE FORMA BEM RELAXADA GRAVAR TUDO O QUE BEM ENTENDESSE.

BOM, DEPOIS DISSO FICAMOS ANSIOSAMENTE AGUARDANDO. EU NÃO TINHA IDEIA SE ELES IRIAM REALMENTE GRAVAR, OU O QUÊ ELES IRIAM GRAVAR.

EU ACHAVA QUE IA DAR TUDO PRA DAR ERRADO.

ENTÃO TU NÃO PODES IMAGINAR COMO QUE PRA NÓS, DA EQUIPE DO FAXINA, FOI UMA SURPRESA IMENSA QUANDO RECEBEMOS DE VOLTA UMA GIGANTESCA QUANTIDADE DE ÁUDIOS.

PRA A NOSSA FELICIDADE, DORKA QUE HOJE TEM 11 ANOS ADOROU FALAR NO GRAVADOR QUEM ELA É MAS DE CARA NOS AVISOU DO JEITO QUE ELA É

Dorka: Eu vou lá, vou esperar você falar "Senta, senta" aí eu sento, fico quietinha até você falar fica à vontade. Aí eu fico! Nossa!

POR UMA SEMANA DORKA GRAVOU TODOS OS DIAS. ELA NOS CONTOU HISTÓRIAS DE SUA FAMÍLIA, NOS LEVOU PARA DENTRO DA SUA BRINCADEIRA DE BONECAS, PARA DENTRO DE SUAS MEMÓRIAS.

DEPOIS, ELA PASSOU O GRAVADOR PARA JOSÉ, SEU IRMÃO DE 14 ANOS. ELE MUITO MAIS TÍMIDO GRAVOU POUCO.

POR ÚLTIMO, GLADEIVYS, A MATRIARCA DA FAMÍLIA, QUE JÁ HAVIA CONVERSADO COM A GENTE ANTES, TEVE TAMBÉM A OPORTUNIDADE DE GRAVAR SONS DE SEU DIA.

OUVIMOS CADA MINUTO DE ÁUDIO. E COM A AJUDA DA FAMÍLIA PALMA PORTILLO MONTAMOS O EPISÓDIO DE HOJE

A GENTE SABE QUE OS SONS DO DIA-A-DIA SÃO MUITO BAGUNÇADOS PORQUE A VIDA NUNCA É EM LINHA RETA E ARRUMADINHA. ENTÃO, PRA NINGUÉM SE PERDER NA HISTÓRIA, NÓS ORGANIZAMOS O EPISÓDIO EM 5 ATOS.

BOM, SEM MAIS DEMORA, NARRADO POR GLADEIVYS PORTILLO SALAZAR, DORKA SHEKINA PALMA PORTILLO, E JOSÉ PALMA PORTILLO, TU VAIS ESCUTAR O EPISÓDIO “DIÁRIO DE UM REFÚGIO”

ATO 1: DESLOCAMENTO E ACOLHIMENTO - É DORKA QUEM NUMA MANHÃ DE DOMINGO NO DIA 13 DE JUNHO INICIA AS GRAVAÇÕES QUE TU VAIS OUVIR. ELA JUNTO COM A MÃE GLADEIVYS, VAI NOS CONTANDO COMO FOI SAIR DA VENEZUELA E CRUZAR A FRONTEIRA DO BRASIL ENTRANDO NO ESTADO DE RORAIMA SEM SABER O QUE IRIAM ENCONTRAR.

[:

Dorka: Bom eu ainda não tomei café da manhã. Estou com fome. [00:03:00-00:03:02]

Gladeivys: Na verdade ela acorda com fome.

] Dorka: Eu acordo com fome. Nesses dias sonhei que estava na Venezuela.

Gladeivys: Que felicidade.

Dorka: Era o aniversário da minha avó e a gente estava lá numa casona, bem grande, era a casa, muito muito muito grande. E tinha uma árvore de manga - aqui todos os venezuelanos, todos eles gostam de manga, qualquer tipo de manga. É como uma fruta tradicional, cultura.

Gladeivys: Lá na Venezuela as casas são grandes, os quartos são grandes. A minha casa tinha dois quartos grandes, três banheiros, uma cozinha grande enorme, una sala de estar, um quintal enorme. Lá a gente não pagava luz a água, não ser paga lá na Venezuela não se paga. Eu vivia de boa. Ah aqui no Brasil estou morando numa casa de dois cômodos, um banheiro. Não tem quintal. Só

Dorka: Tá muito frio. A gente está saindo de casa quase que eu saio sem a blusa. Agora estou vendo a plantinha do meu vizinho. Ela está crescendo. No caminho eu estou lembrando quando a gente ficou viajando. Mas eu estou lembrando que minha mãe, eu, e meu irmão a gente estava num ônibus. A gente estava saindo do país eu acho.

Gladeivys: Gente passou 12 horas de ônibus até chegar uma parte que se chama Santa Helena que ainda é Venezuela. E o dinheiro que eu trazia só me dava pra chegar na fronteira.

[ Dorka: Aí a gente chegou na Roraima, na Boa Vista, e naquele dia eu comi a primeira Comida que eu comi Brasileira, brasileira. Estava gostosa! Eu comi muito, muito, eu estava com muita fome. Eu lembro de tudo, o sabor.

Dorka: Foi difícil aprender o idioma. Foi difícil.

Dorka: Agora são às onze e meia. A minha mãe está cozinhando uma salada da Venezuela né. Mas ela tem que fazer a maionese da Venezuela pra ficar com o mesmo sabor. Da... É que a gente não gosta da da maionese do Brasil. Muito diferente

Dorka: E Cheguei cansada, eu estou com sono. Primeiro vou almoçar, depois dormir e depois eu continuo falando a minha história. Dormir vai me lembrar várias coisas. Não fiquem triste eu já volto. E bom, tchau!

Gladeivys: Quando você entra aqui no Brasil Você... eles fala para você, você vai entrar como refugiado ou como residente? No momento que ele me pergunta, eu nem sabia, eu nem sabia que era isso. Mas escolhi ficar como residente e até agora estou como residente, graças a Deus. Quinze dias depois chegou meu marido. A gente conseguiu alugar. Só que naquele entonces, naquele momento, tinha muito venezuelano na Roraima. E para você conseguir arrumar um emprego era muito difícil, muito. Eu comecei a fazer picolé. Meu filho, meu marido, eles saiam vender na rua picolé. Mas não dava pra gente pagar as conta, pra gente comer. Então eu conheci um padre da Igreja Católica. E eu fui lá e falei com ele e ele falou assim, então eu vou te recomendar você tentar entrar no abrigo. Eu falei, Então amanhã vou lá. Ele falou, Não você não pode ir amanhã, você tem que hoje, dormir lá fora e tentar entrar, porque não é você, tinha mais de 600 família venezuelana dormindo na rodoviária de Roraima. A gente conseguiu entrar no abrigo. A gente graças a Deus, a gente teve morando sete meses no abrigo.

Dorka: Estou aqui de novo, voltei mais alegre né. São às 16 horas. Estou aqui me arrumando, vou me vestir. Bem bonita! Ah bom, e o abrigo é feio, é muito feio.

Gladeivys: E esse abrigo tinha mais de 1.200 pessoas na Roraima. Minha família ficou numa barraca só. Mas depois, a gente tinha que dividir a barraca em duas partes para colocar outra família.

Dorka: Bem eu estava muito triste porque pensei que todo mundo ia entender eu. Eu pensei que eles falavam espanhol. Lá na escola da Roraima, a gente lá... Lá, não sei se vocês sabem, mas lá eles cantam o hino do Brasil e depois a gente faz uma oração, depois a gente entrava na sala. Eu fiquei chorando porque eu queria ficar com minha mãe. Mas não foi... Para mim não foi fácil. Eu não gostei não gostei. Mas tinha que estudar.

Dorka: Mas quando tive amigos eu me senti assim que ... como se disse la el abrigo? Sentia.. Me sentia... deixa eu lembrar o nome... Acolhida. Me senti acolhida. Nossa.

Gladeivys: Deus tocou o coração de uma família aqui em Vinhedo. Eles contactaram, fizeram contato. E eles pediram duas famílias com um e dois filhos que ele vão conseguir ajudar a gente para vir e se estabelecer aqui em Vinhedo, em São Paulo. Nossa foi um negócio que... É assim, quando chega na sua casa e batem à porta e fala, Olha eu trouxe uma oportunidade para você e agora você vai ver se aceita ou não. A gente aceitou e nossa foi muito muito bom.

Dorka: Os brasileiros eles têm um coração bom. É incrível as pessoas né que fez o refúgio lá, o... Aquela coisa donde muitos venezuelanos ficaram. O coração das pessoas, É incrivelmente incrível.

Dorka: Quando a gente chegou em casa a gente não tinha muita coisa, não tinha. Tinha Uma cama, dois colchão. A cozinha e tal, todo arrumadinho. E... Agora tem roupa para todo lado. Porque, pelas doações. E com todo o meu coração eu quero falar para vocês brasileiros, Obrigado por ajudar nós. Muito obrigado que eu estou olha muito agradecida.

[ Dorka: oi gente! Eu voltei. Eu estou aqui com meus meus três amores e a gente tá vendo as fotos quando a gente estava lá no refúgio, [no abrigo] no abrigo [em Roraima] na Roraima.

Gladeivys: Todo mundo estava magro. Que pele está queimada né. O que eu estou aqui deitada na minha barraca, tirei uma fotinha ali pra deixar de lembrança... Olha minha filha. Olha lá o colchão jogado no chão.

Gladeivys: Ah gente, sabe onde a gente pendura a roupa quando a gente morava lá no abrigo? Na areia. No chão.

Dorka: Nem era areia ... [era Pedra]

Gladeivys: Colocava lá nas pedra e tinha que vigiar ela pra ninguém pegar ela porque senão você ficava sem roupa mesmo.

Dorka: Olha aqui está meu marido tá pensando só que horas que vai chegar as marmita gente. A gente tava com fome. Olha a cara da minha filha! A minha filha estava tão magra, tão magra. Pelo amor de Deus!

Dorka: Minha mãe era a única que sempre estava bonita. Agora eu e o meu irmão.

Gladeivys: Olha aqui tá uma foto que... Esta foto a gente tirou.hahaha Essa foi a foto que a gente mandou quando as pessoas que morava que nos ajudou a chegar aqui no vinhedo. Elas pediram uma foto da família

Dorka: No avião. Meu pai todo bonitão. Aí eu, olha eu toda linda. Que olhos lindos tem meu irmão, gente! Minha mãe morta de frio.

ATO 2: NA CIDADE DE VINHEDO, NO INTERIOR DE SÃO PAULO, A FAMÍLIA PALMA PORTILLO ENCONTRA UMA COMUNIDADE ACOLHEDORA NA IGREJA, NA VIZINHANÇA, NA NOVA ESCOLA. DORKA TENTA LEMBRAR DO MOTIVO PORQUE ELES SAÍRAM DA VENEZUELA. E GLADEIVYS NOS FALA DOS NOVOS EMPREGOS QUE ELA E O MARIDO TEM. TU PODES OUVIR QUE TODOS ESTÃO TENTANDO SE ADAPTAR ÀS NOVAS IDENTIDADES, À NOVA LÍNGUA. E NO FINAL DESSE ATO, A BRINCADEIRA DE FAZ DE DE DORKA NOS DIZ MUITO DA SOCIEDADE RACISTA EM QUE VIVEMOS. ESCUTA COM ATENÇÃO

Dorka: Eu cheguei aqui eu estava no quarto ano. Eu cheguei lá na escola daqui de Vinhedo e o professor falou assim, essa é a Dorka e ela tem dez anos. Todo mundo falou oi!... E eles achavam que eu era da Espanha, e como eu não entendia muito bem o idioma. Uma menina me perguntou, se é aa Espanha? E eu falei assim, Eu fiz SIM com a cabeça. Eu comecei a entender. Depois eu falei... E o Professor falou, não... Aí ele perguntou, Dorka cê é de que país? Daí entendi. Ah eu sou da Venezuela. Ah, ela é migrante! Sim.

Dorka: E eles me ajudaram muito. E uma menina foi lá e falou, oh senta aqui do meu lado. Porque eles estavam fazendo um trabalho em dupla. Me emprestaram um livro. Eu me senti muito muito assim... Muito feliz. Bem recebida né. Nossa foi o melhor dia da minha vida! Estou me sentindo muito feliz aqui no país. Mas tem lugares que as pessoas não sabem ter um amor pelos venezuelanos. E bom, agradeço por apoiar a gente, venezuelano. Nós emigrantes, nós imigrante.

Dorka: Gosto de contar a minha história porque todo mundo me pergunta, ah omo foi? Então eu gosto de história. Eu amo histórias. E eu estou muito feliz por vocês estar aqui, por vocês está me escutando né, minha história. Porque tenho muita coisa para falar e muito mesmo, cada segundo o que eu lembro. .[...] Eu lembro de um e já vou para o outro, já vou pra outro.

Dorka: Bom dia. Hoje é o novo dia. Eu de novo a Dorka. Hoje é segunda, 14 de junho de 2 mil e 21. Eu acho que a gente hoje vai comer café com leite com pão e ovo. Eu amo! Adoro! Minha mãe agora está como uma princesa, penteando o cabelo, bem bonita né. Ficar bonita para o dia. Também hoje ela tem que trabalhar.

Dorka: Pera aí que eu acho que eu tenho que arrumar a louça.

Gladeivys: Eu venho da cidade Guayana. Nossa é uma cidade linda! Porque na verdade é uma cidade muito moderna e muito antiga. Uma área onde você fala , não... Minha cidade tem tudo, para que eu vou sair daqui? Entendeu? Eu tinha tudo no meu país. Tinha tudo. Tudo. Tinha comida, tinha uma casa própria. Vivia bem na verdade

Dorka: Que por quê. Porque foi la decision de la venir?.

Dorka: Vocês devem estar se perguntando, qual foi a decisão? Por que vocês... Nós né, minha família, porque a gente veio aqui pro Brasil? Minha mãe falou para um bem, para o nosso futuro também. Mas vou contar uma história. Antes de a gente vim para cá, a gente nem sabia né que a gente ia vir para cá, eu tive dengue, eu tive dengue. Era vida ou morte. Vamos falar assim, vida ou morte. Aí né, o meu irmão ficou doente de dengue também.

Gladeivys: Meu filho pegou dengue.

Dorka: Nesse dia estava chovendo. Mas não era qualquer chuvinha não. Todo mundo dentro de casa. Mas a situação não estava boa. Então a gente foi lá no médico

Dorka: a gente foi em vários...Várias clínicas né, procurar um remédio.

Gladeivys: E foi um negócio pra mim tão ruim, que eu tinha dinheiro e eu não conseguia comprar uma dipirona para meu filho que tinha muita fé.

Dorka: E [...] E a gente não achou o remédio. Aí minha mãe falou para o meu pai a gente vai viajar

Gladeivys: Não filha, não foi assim.

Dorka: [Como foi?] Eu falei pra José. José você tem que melhorar porque assim que você melhorar, a gente vai embora. [pro Brasil?] Pro Brasil.

Gladeivys: Eu queria um melhor ambiente para meu filho. Eu queria uma melhor educação. Eu queria que se ele ficar doente de novo, gente, eu não passar aquilo que passei com o meu filho, que eu fiquei desesperada.

Dorka: Então a gente teve que vender muita coisa. Várias coisas. Pra gente ter o dinheiro.

Gladeivys: Tem muita casa desabitada agora na Venezuela. Eu vou embora. Eu não posso deixar nada aqui porque todo mundo fica sabendo que você saiu do país. Qualquer pessoa entra na sua casa e pega as duas coisas. Nossa, e agora o governo da Venezuela eles colocaram uma lei, que se você saiu do país você perdeu tudo, sua casa, tudo.

Gladeivys: É tu te recuerdas quando salimos?

[ Dorka: Eu sei lá. Achava que a gente ia para a casa da nossa avó. E agora a gente está aqui junto em família, não é mãe? A gente teve que se separar, todo mundo para o lugar e depois voltar

Dorka: Mas Para mim foi uma aventura! E assim... Foi fácil? não né.

Dorka: Antes... Antes de a gente entrar abrigo no refúgio. Eu não queria falar esse idioma, não queria ficar nesse país. Eu queria ficar no meu. E agora só falo português para cá e para cá.

Gladeivys: Que tu mas extranha da Venezuela?

Dorka: O quê que eu tenho mais saudade da Venezuela? E... Avó, meu cachorro que morreu, e minha família. Quero que toda a minha família está aqui.

Dorka: Eu tenho que lavar meu prato.

Dorka: Na verdade foi muito assim. Hoje eu paro para pensar eu falo, Nossa. Foi difícil para nossas mães, para nossos pais né. Pra nos cuidar, para nos... Para a nossa educação. Porque eles, primeiro, eles primeiro pensa na gente, para cuidar da gente né. Porque minha mãe fala que ela trouxe a gente aqui para um bem para a gente, o melhor futuro. E tá sendo.É tá sendo.

Dorka: Eu sou a Dorka de novo! Hoje acordei, a primeiro que eu fiz é abraçar minha mãe e depois eu arrumei a cama dela, porque ela estava preparando o café da manhã. Nosso café da manhã hoje é Panquecas Com queijo. Com queijo derretido, ai que gostoso! E manteiga! Agora eu vou comer, tô com muita fome. E vocês, o que vocês vão comer?

[ruidos de cafe]

Dorka: Minha mãe também tirou A TV. Porque eu gosto de ver as minha novela. Estava tudo ficando bom, até que ela falou, CHEGA! Nem desenho? [nem nada] nossa!

Dorka: Quando eu fui para a escola né, a escola daqui. A gente... O meu professor tava ditando. Ou seja, ele estava falando uma história e a gente tinha que escrever. Aí como não estava sabendo muito de português, ele falou a história e ele começou a falar "vírgula" e em vez de eu fazer uma linha assim pra baixo, eu escrevia.

Gladeivys: [risos]

Dorka: Sim. Não sabia

José: [risos].

Dorka: É meu irmão. Se vocês escutarem esse som assim, Ele está fazendo aí uma coisa... Sei lá, vou perguntar pra ele, "que você tá fazendo?

José: Emendando aqui.

Dorka: Eu não sei como... Ele não traduziu pra mim, então eu também não vou traduzir.

José: O que lhe parece viver neste casa?

Dorka: O que eu acho de viver nessa casa? É legal, mas ela pequena.

José: O que você gosta do seu irmão?

Dorka: Que ele é bem fortão, bem bonitão. Todas as meninas ficam morrendo por ele.

José: Oh José! [irmão brincando] [brincando] Mama!

Dorka: Vocês já estão vendo, nossa! que família maluquinha. Um fala espanhol, outra português, como é que é isso?

Gladeivys: Ah, mas a gente consegue se entender. Você. [música de video game] Vai com Deus viu! Se cuida viu! Beijos! viu viu viu

Gladeivys: Eu estou fazendo... E estou trabalhando numa.... numa clínica. É fazer faxina para manter a clínica limpa. Nessa parte de limpeza. Meu marido, ele começou... Tem um restaurante que é muito conhecido aqui onde a gente mora, e ele foi lá, e ele começou na pia, lavando louça. Já ele agora está em outra parte melhor, onde ganha o melhor salário e está melhor, graças a Deus! Porque meu marido a área dele é a cozinha. Ele gosta de cozinhar. Ele já trabalhou muitos anos lá na Venezuela nessa área.

Dorka: Se essa rua, se essa rua fosse minha, mandaria, mandaria ladrilhar, com rosinhas e diamantes bem brilhantes. Quem será, que será que vai olhar. Se essa rua, se essa rua.

Dorka: Eu vou ser babá gente de uma bonequinha que ela parece... Para vocês ter uma noção...imaginar como ela é. Ela é cor meio laranja. Ela tem um vestidinho com uma saia, tudo rosa e um sapatinho. Ela tem sobrancelha um marrom e os olhos azuis. Bem azuis. Eu sou babá dela porque eu não me parece com ela, que eu não tenho olhos azuis.

Dorka: Peraí, peraí minha gente eu vou procurar uma coisa lá nos meus brinquedos. Já volto. Eu tenho que encontrar a mamadeira dela. Cadê meu cartão de crédito? Um cartãozinho de brinquedo e uma máquininha que ela aparece de cartão, mas ela não serve.Então eu brinco com ela. Tá eu tenho 300 milhões de dólares. Tá bom.

Dorka: Não é de débito é... De crédito? De débito?

Dorka: Pic. Quanto que dá moça? 20 reais, tá bom! pic

Dorka: Vou colocar senha pic pic pic e pronto. Vou por isso aqui. Ela deu um banho, eu vou colocar o vestidinho dela lá lá lá ra.

Dorka: Eu vou devolver esse vestido para a moça, que eu não vou gastar meu dinheiro com coisa que não serve pra pra mi... Pra ela né. Eu já volto. Ela ainda tá mimindo tu tu tu. A mãe dela viajou então deixou comigo, e como ela está dormindo, eu vou na fábrica de carrinho. hum hum hum

Dorka: [risos] ela deu um pulo! Meu Deus! [risos] foi muito engraçado! Agora ficou linda. Que linda! Que linda meu Deus! Vou dar mamadeira para ela ti ti ti pronto. A princesinha tá bem bonita! Que a mamãe vai chegar as 7.

Dorka: Vou pegar a bolsinha da da criança. Ah meu cartão! Vou por aqui também. Vamo! Vamo meu amor. Vamo!!! Brummmmm

Dorka: [Faz sons na boca de motor de carro e sirenes] Ambulância, a gente tem que esperar. Esperar ela passar. E...a polícia? "Moça" Oi. "Você estava dirigindo muito rápido" Eu? Rápido? Não era eu moço. "Não, é você mesmo. Deixa eu ver sua carteira de...de...De como que é o nome? Carteira de...hum hum. Você,você vai ter que pagar 100, 100 reais." Tá bom. Pic! Senha? pronto. "Essa multa...e lembre-se, não corre tanto e com essa bebezinha também. Essa bebezinha é sua?" Não eu sou babá dela. "han, deixa eu ver aqui os papéis... han tá bom, viu? tá bom. Tchau Tenha um bom dia." Igualmente [sons de carro com a boca].

Dorka: Agora eu vou, eu vou para o meu trabalho que eu tenho que... No meu trabalho de clínica que eu tenho que fazer faxina... De faxineira e depois... Que eu trabalho dois trabalho.

ATO 3: NESSA PARTE DO EPISÓDIO DORKA VAI NOS MOSTRAR QUE SER IMIGRANTE É VIVER ENTRE O MEDO DE PERDER SUAS MEMÓRIAS DO PASSADO E A FELICIDADE DE CONQUISTAR UM FUTURO. PARA A FAMÍLIA PALMA PORTILLO O FUTURO É PODER ALUGAR UMA CASA COM UM QUARTO E QUINTAL.

de junho,:

Dorka: Minha mãe, ela me deu uma boa ideia. Minha mãe me falou que eu tenho que pegar um caderno e escrever os nomes das pessoas que eu mais gosto. Quanto lá na Venezuela quanto aqui, porque aqui eu amo muito a pessoa e lá na Venezuela também! E bom, eu não sei por onde que vou começar. Bom vamos lá.

Dorka: Primeiro as da Venezuela. As pessoas que eu mais amo na Venezuela ... A minha vó, que ela ainda não saiu da Venezuela. Primo. La tia Ana, ah tia Rita! ...tia Mari. El tio Coco, mi outra tia Mari, creio que só mama. [e aqui?] E aqui me aponer Alana, o Wesley... Flávia, la senhora Solange, Simone também. Alana, Solange, Simone, Michelle, Nicole, Natalia... Eu amo mais pessoas venezuelanas do que o brasileira, gente. Mas eu amo muito a Dulcinéia, nossa! haaaa

Dorka: Gente eu já escrever todos, na Venezuela deu...16 só 16 mesmo. E no Brasil deu... Tu tu tu tu 11. E 16 pessoas da VENEZUELA!. Pun ta ta, pun ta ta [funk]

Dorka: Tô brava! [Porque tá brava? me conta porque tá brava] Tõ brava porque ela empresta o Telefone ontem pra meu irmão e aí não empresta para mim né. Mimadinho.

Gladeivys: Fala, minha mãe só tem um telefone. A gente só tem um telefone, e a gente gusta de jugar video-game. Então quando meu irmão pegar ele, eu ficou brava. Então quando eu pego, eu fico muito contente. Mas quando a minha mãe deixa pra ele ou ficou brava de novo. [risos]

Dorka: Eu nunca fiz um desenho tão feio assim

José: [fala algo]

Dorka: Um Cala-te!

Dorka: Gente, tô muito brava! grunt grunt grunt Ahhh Como hoje meu irmão dormiu com a minha mãe, Ele vai arrumar a cama dela

Dorka: [cantarola o hino nacional brasileiro] de um povo céu risonho e limpido... TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM turum TUM tum TU rotum tumtum torum tum tum tum tu tum tum tum tum tum tum. Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heróico brado retumbante.

Dorka: Eu tinha um cachorro lá na Venezuela gente. Era um membro da família. Ele morreu. Ele era tão legal. E ele morreu de saudades da gente porque a gente veio pra cá. PATRIA AMADA BRASIL.

Dorka: . Pi-co-le, pico ahiba pico abaixo, pico cento. [Não não era] vamo, vamo vamo ... no no aiiii [brincando com o irmão José] [risos]

Dorka: Estou muito feliz. Férias! Férias! Férias!

Dorka: Vou desenhar...Gente eu amo desenhar muito muito muito

Gladeivys: É desenhar é uma parte Dela. ... Que ela entra no mundo dela, entendeu. Que ela esquece de tudo.

Dorka: Madre mia!

Gladeivys: Que foi meu amor? Vai dar certo, se Deus quiser vai dar certo.

Dorka: Mas o que ele te ligou?

Gladeivys: Para confirmar.

Dorka: Que sim?

Gladeivys: Sim.

Dorka: E quando a gente vai?

Gladeivys: Agora no mês que vem.

Dorka: Em julho? A gente vai embora hu huh, dessa casa, que já está muito pequena, tá nos esmagando.

Dorka: Gente eu estou muito feliiiiiiz!!! muito feliz!!! A felicidade sai pelos... Pelo nariz.

Gladeivys: Eu gostei de Vinhedo porque ele tem um parecido a minha cidade de origem. Eu vou falar pra você tem dias que eu venho ali no você eu passo ali eu fico só olhando assim: nossa! eu estou na minha cidade, mas quando desço do ônibus, não! Acorda pra vida a mulher, tá nada.

je eu tenho que fazer faxina [:

Dorka: A minha mão uma vez que amo minha mãe vê isso. A gente tá frito. Então é melhor esconder que eu não quero fazer faxina feia Tudo conta tudinho.

Dorka: 1,2,3, 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 17 18 19 20 21 22. 22 dias para a gente está na casa nova BUM BUm BUm Ba!

Dorka: Na casa, mãe falou que tem quintal, tem uma garagem, lá tem dois banheiro meu. É difícil mudança né gente. Muito dificil.

Dorka: Eu não sei se eu contei para vocês que minha mãe me tirou do castigo ontem. Me tirou. Nossa! Estou muito feliz. E também a mãe falou que, se Deus quiser, a gente vai comprar um guarda roupa. A gente vai ter que chamar um caminhão, sei lá, pra levar as coisas. A cama de casal... É longe, é longe.

Dorka: Mãe, eu te amo mãe, você é muito bonita, te amo muito [...] tô com sono.

Gladeivys: Amanhã vamos fazer uma biografia de você.Vamos falar onde você nasceu. De que estado você nasceu. Ou coisa que você mais gosta. Sua comida preferida.

Dorka: Tá mãe. Mas faz a pergunta então. A primeira pergunta.

Gladeivys: Não, não. Amanhã...

ATO 4: BIOGRAFIA. A IMIGRAÇÃO NOS PARTE EM PEDAÇOS, MAS TAMBÉM JUNTA TODAS ESSAS NOSSAS PORÇÕES E NOS FAZ MAIORES, MAIS ABERTOS PARA AS DIFERENÇAS, COMO UM LINDO MOSAICO DE GENTE BRILHANTE.

E É POR ISSO QUE, DEPOIS DE FICAR MAIOR, TEM ESPAÇO DE SOBRA NO CORAÇÃO DE DORKA E SUA FAMÍLIA PARA AMAR AREPA E COXINHA COM A MESMA INTENSIDADE.

de junho:

Gladeivys: Qual é o seu nome?

Dorka: Dorka. Dorka Shekina Palma Portillo. Sou da Venezuela, Gaucipatense

Gladeivys: Quantos anos você tem?

Dorka: 10... 11 anos.

Gladeivys: Quando você chegou aqui no Brasil?

Dorka: Em:

Gladeivys: Você queria sair de seu país?

Dorka: Não.

Gladeivys: Então você não queria sair de seu país?

Dorka: Não.

Gladeivys: Você sente saudade dele?

Dorka: To com saudade...Das comida. Eu queria comer cocosete, aquela comida que como uma cremita, aquela chupeta que se estica, a... Arepa. Arepa de mãe, arepa marília. Ai que saudade! Tô com fome agora.

Gladeivys: Arepa. Você sabe o que é uma arepa? alguma vez viu Ela? E você comeu? Comeu Arepa? Tem muito jeito de faze-la. E você pode rechear ela com o que você deseja. Sabe o que eu trouxe da Venezuela? Que você não vai acreditar. A gente usa uma chapa para fazer as arepas e eu trouxe essa chapa. [risos] Eu trouxe a minha chapa em minhas panelas [risos]. Quando eu vinha pra Vinhedo, que eu estava lá no aeroporto. Gente quando a minha mala passou [risos] aquele negócio fez BUM! E o cara ficou me olhando. "O que é que você leva aí mulher?" Eu falei "Moço, O que acontece é que eu tenho ali minhas panelas e minha chapa de fazer arepa. E ele falou assim pra mim, "E você acha que o Brasil não tem panelas?" [risos] Mas eu falei, "você vai pegar minhas panelas?" Ele falou, "não mulher. Deixe as sua panela ali. Ela viajou muito longe." E até agora eu tenho minhas panelas ali e a minha chapa [risos].

Gladeivys: Você se sente bem no Brasil? Se sente acolhida?

Dorka: Eu acho que Vinhedo é tranquilo, mas o Brasil assim... É eu quero, eu quero, eu quero, quero e eu quero ir para outro país com as pessoa que eu mais amo.

Gladeivys: Mas você quer emigrar de novo?

Dorka: Eu quero ir pra outro país ué? Conhecer...

Gladeivys: Não. Não. Não me sinto em casa não. Tô bem. Estou tranquila, mas não me sinto em casa. Minha casa que eu tô é na Venezuela. Meu coração está lá. Minha terra.

Gladeivys: Mas não é fácil morar longe de seu país, não é fácil para ninguém. Não é fácil. A gente sente saudade de tudo. A gente sente saudade até do cheiro da chuva é diferente.

Gladeivys: Ah tem uma comida brasileira que você goste?

Dorka: Coxinha coxinha coxinha. A coxinha vai dominar o mundo! Ah e aquela lá que é o frango que ele tem tem um molho.

José e Gladeivys: Branco?

Dorka: Não. Não é branco. É laranja.

José e Gladeivys: Estrogonofe!

Dorka: Estrogonofe, eu gosto de estrogonofe.

Gladeivys: Qual qual o seu sonho.

Dorka: O meu sonho?

Dorka: Eu quero ter um quarto que tenha caneta para lá e caneta pra cá. Cores para cá, tudo para cá. Aí quando crescer, cebeleireira leira. Venha fazer suas unhas, hidratação e...

Gladeivys: Ah meu sonho pra futuro é colocar um salão. Um salão de... Pra cabelo. Yo gosto muito de mexer com o cabelo. E fazer sobrancelha, fazer luzes no cabelo. Sabe uma coisa que a mulher venezuelana ela tem que ter arrumado? A sobrancelha. [risos] Pra nós tudo pode estar bagunçado, o cabelo... Toda descabelada. Mas a sobrancelha tem que estar perfeitinha! Então você que é uma mulher venezuelana, se você tem feito a sua sobrancelha, você é linda! Ninguém pode falar o contrário pra você. [risos]

Dorka: Ou eu queria ser padeira. Padeira é legal! A cozinha quentinha... Padaria Shekina!

Gladeivys: Se você tiver a oportunidade de trazer alguma coisa da Venezuela, o que você...

Dorka: Ou uma pessoa?

Gladeivys: Ou uma pessoa.

Dorka: Eu trazeria a avó... e a casa da avó.

Gladeivys: E... Gostaria de voltar para a Venezuela?

Dorka: Não.

Gladeivys: Nem nem nem lá de visita? .. você tem Medo.

Dorka: Só pra ver a avó

Gladeivys: Una foto da abuelita. Hajer una foto da abuelita imaginária aí e deixa gravada.

Dorka: Ela é muito velhinha parece um sorvete derretendo, ela tem um pontinho preto, ela sempre fecha os olhos duas vezes, ela briga muito, tem um pau de vassoura com duas cordas. Ela sempre usa uns vestidinho. Ela sempre está numa cadeira azul com branco que balança. Tem o cabelo cinza, tem os cachinhos. Cabelo curto. Eu amo muito ela.

Gladeivys: Como foi para você sua vida depois da pandemia?

Dorka: Foi muito ruim. Porque a gente tinha combinado que minha vó ia vir para cá, o meu irmão mais velho. A gente ia fazer muita coisa. Começou, e não deu para fazer nada. Mas eu sei que a quarentena vai acabar. Vai acabar quando todo mundo tiver vacinado. Todos os países. Um país ajudando o outro. E assim todo mundo é feliz.

de junho de:

Gladeivys: Oi! Boa noite. Hoje é a surpresa do aniversário do meu filho. A gente fez uma Surpresa hoje né, aqui na Igreja. [sons de festa e cantando parabéns].

de junho de:

Gladeivys: Oi! São as 11 e meia já da manhã do dia 30 de junho. Vou caminhando, tô saindo da minha casa né. Caminho na rodovia para pegar o ônibus para ir no serviço. Hoje está muito gelado. Já estamos a dez graus né. Tentando pegar um ônibus hoje mais cedo para sair mais cedo. Estou saindo muito tarde e está muito gelado. Então se eu consigo entrar um pouquinho mais cedo eu consigo sair mais cedo, se Deus quiser! Minhas mãos estão congelada congelada congelada.

Gladeivys: Bom dia. Tudo bem. [ no ônibus] Imagina, brigada eu ! Já estou no ônibus já, graças a Deus.

Gladeivys: Oi vocês! Eu de novo. Já estou aqui né, na clínica. Faz muito tempo que eu cheguei, já são vai fazer as duas horas já. Então estou aqui fazendo faxina.

Gladeivys: A gente é muito humilhada, entendeu. Como faxineira. Então é um negócio assim que a gente... Eles brigam porque a gente gasta muito produto, eles brigam porque a gente gasta muito salito. Eles brigam por tudo. Então a gente... Como que a gente faz? A gente não tem jeito.

Gladeivys: Oi vocês! Tudo bem? Nossa! São as seis e vinte já né. Que eu saí agora do meu serviço. Eu quase que eu perdi o ônibus é...Chegar em casa pra ver o que vou fazer de janta pra hoje.

de julho de:

Gladeivys: Valeu a pena. Sim valeu a pena. Tô bem, meu filho tá bem. Aqui onde a gente mora, a gente tem uma médica da família e qualquer coisa que você sentir, ou precisar, a gente vai ali no posto e a recepção deles é muito boa. Eu estou muito agradecida por vocês, pelo seu país e todas essas pessoas que a gente conhece no dia a dia pra mim é uma benção na minha vida. Na verdade.

Gladeivys: Vou cantar em espanhol.

[canta musica em espanhol]

CHEGAMOS NO ATO FINAL: SE TU FOSSES GRAVAR UMA MENSAGEM PARA GUARDAR NA TUA CÁPSULA DO TEMPO E SÓ ABRIR DAQUI HÁ 30 ANOS, O QUE TU DEIXARIAS GRAVADO?

Gladeivys: Imagina, que você vai ouvir essa gravação daqui há 20 anos, o que você deixar deixaria registrado para você no futuro? O que deixaria registra pra te recordar?

Dorka: Deixaria gravado... Todas as pessoas que eu mais amo pra nunca esquecer. As comida que eu mais gosto. Como é minha casa, pequenina, mas eu vou me mudar. Ah deixa eu ver... Eu nunca vou esquecer da Tia Duda. Ela é muito carinhosa, muito amorosa.

Gladeivys: Deixaria também essa lembrança ali para você... Mas não chore Mulher... Não chore. Não chore minha filha linda. Não chora. não chore. Queres chorar sozinha, gravando? Para falar com a gravadora? Não. Fala então. Você quer que essa gravação...

Dorka: Ajuda a gente. Todo mundo. Todos os migrantes. Porque as pessoas boas, os brasileiros bons, quando eles ajudam os venezuelanos eles vão sentir isso no seu coração. Porque sei que todos os imigrantes, vários né, vão se sentir acolhidos. Mas em vários países é triste.

Gladeivys: O governo da Venezuela ele não tem nem respeito pela vida humana. Ver crianças de 11 anos, de 9 anos, trabalhando para tentar ganhar pelo menos o pçao do dia e o governo chega em mata eles sem dó. As crianças na Venezuela não têm futuro. E onde é que vai parar o negócio assim onde não tem educação? Qual o futuro?

Dorka: Porque eu sei que quando eu tiver 30 anos a Venezuela vai tá melhor. E como esse áudio se guardar, eu vou lembrar o que aconteceu com o meu país. [choro] Mas eu sei que ele vai melhorar. [choro] E todo o mundo vai ser feliz. Eu vou viajar. Conhecer novos lugares, novos idiomas e ter mais amigos.

Dorka: Gente, tô chorando. Tinha que tá feliz. Obrigada pela oportunidade. Que Deus abençoe todo o mundo que ajudou a gente. Obrigado.

Dorka: Bom, você me conhece agora né. Tchau.

Dorka: Gente vou brincar com meus amigos, tá bom. Beijos tchau!

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EM MARÇO DE:

BOM, ISSO FERE OS TRATADOS INTERNACIONAIS QUE PROTEGEM O DIREITO HUMANO AO REFÚGIO.

SEGUNDO UM RELATÓRIO DO INSTITUTO MIGRAÇÃO, GÊNERO E RAÇA, QUANTO MAIS PROIBIÇÕES EXISTEM DE SERES HUMANOS SE DESLOCAREM ENTRE PAÍSES, MAIS OS IMIGRANTES BUSCAM MEIOS ARRISCADOS DE ATRAVESSAR AS FRONTEIRAS OU CAEM NAS MÃOS DOS “COYOTES” E ATRAVESSADORES AUMENTANDO ASSIM OS CASOS DE TRÁFICO DE PESSOAS E CONTRABANDO DE IMIGRANTES

EM JUNHO DESSE ANO, QUANDO A FAMÍLIA PALMA PORTILLO ESTAVA GRAVANDO OS ÁUDIOS PARA ESSE EPISÓDIO, O GOVERNO BRASILEIRO RE-ABRIU A FRONTEIRA COM A VENEZUELA.

SEGUNDO OS DADOS DA POLÍCIA FEDERAL, SÓ EM AGOSTO FOI REGISTRADO A ENTRADA DE APROXIMADAMENTE 7.000 VENEZUELANOS NO BRASIL.

E O NÚMERO DE VENEZUELANOS DESABRIGADOS, MORANDO NAS RUAS DA CIDADE DE PACARAIMA, NO ESTADO DE RORAIMA, EXPLODIU PARA MAIS DE 4.000 PESSOAS.

ESSES VENEZUELANOS SÃO CRIANÇAS, SÃO HOMENS E MULHERES, SÃO PESSOAS EM BUSCA DE UMA CHANCE PARA TER UMA EDUCAÇÃO, TER TRABALHO, TER CONDIÇÕES DE PAGAR POR UM TETO SOBRE SUAS CABEÇAS, TER CONDIÇÕES DE ATENDIMENTO MÉDICO.

ESSAS PESSOAS SÃO OBRIGADAS A SAÍREM DE SEUS PAÍSES DE ORIGEM, DEIXAREM SUAS FAMÍLIAS, AMIGOS E TUDO QUE ELAS CONHECEM PRA TRÁS, DEVIDO A políticas ECONÔMICaS QUE CRIAM FOME E DESAMPARO OU SISTEMAS POLÍTICOS AUTORITÁRIOS E DE PERSEGUIÇÃO. À ESSAS PESSOAS NÓS DEVEMOS NOSSA EMPATIA E NOSSA SOLIDARIEDADE. ESSAS PESSOAS PRECISAM DE NOSSO APOIO, NOSSAS DOAÇÕES E NOSSA VOZ PRA EXIGIR QUE O DIREITO HUMANITÁRIO AO REFÚGIO SEJA GARANTIDO EM TODOS OS PAÍSES.

FICO IMENSAMENTE FELIZ DE TER SEGUIDO MINHA INTUIÇÃO E TER PRODUZIDO A MINISSÉRIE “SONHOS SEM FRONTEIRAS” SOBRE IMIGRANTES QUE VIVENDO NO BRASIL TRABALHAM OU TRABALHARAM COM FAXINA. ESSA EXPERIÊNCIA DE CONHECER ESSES IMIGRANTES DE TERRAS TÃO DISTANTES QUE HOJE CHAMAM O BRASIL, O MEU PAÍS DE NASCIMENTO, DE CASA, PROVOCOU UMA PROFUNDA MUDANÇA DENTRO DE MIM.

EU ESPERO QUE TU, QUE ESCUTOU ESSAS 3 HISTÓRIAS DA MINISSÉRIE, TAMBÉM TENHA TIDO ESSA EXPERIÊNCIA

AGORA COM O CORAÇÃO TRANSBORDANDO DE GRATIDÃO EU QUERO DEIXAR AQUI UM MUITO OBRIGADO A DORKA, AO JOSÉ E A GLADEIVYS POR TER COMPARTILHADO UM POUQUINHO DA VIDA DELES COM A GENTE. AMO VOCÊS!

Gladeivys: Imagina. Obrigada por vocês e pelo seu trabalho. Que Deus abençoe vocês muito e abençoe seu trabalho, que que nossa nossa história, dos imigrantes, possa ajudar pra cambiar a vida da Gente. Beijo para você! Tchau tchau!

OBRIGADA TAMBÉM AOS JORNALISTAS ANAÍRA SARMENTO E JEFERSON BATISTA POR TODA A AJUDA NA PRODUÇÃO DESSE EPISÓDIO. VOCÊS FORAM CRUCIAIS!

E TU OUVINTE DESSE PODCAST,SE PUDERES, APOIA AS ORGANIZAÇÕES QUE OFERECEM REFÚGIO, QUE ABRIGAM, E ACOLHEM OS IMIGRANTES NO BRASIL.

E POR ÚLTIMO NÃO ESQUECE DE CONTAR DO FAXINA PARA AMIGOS, AMIGAS, AMIGUES, VIZINHANÇA E PARENTES, PORQUE DE BOCA-EM-BOCA A GENTE CHEGA AOS OUVIDOS DO MUNDO.

OBRIGADA POR ESCUTAR O FAXINA, ATÉ O PRÓXIMA EPISÓDIO.

TCHAU!

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CREDITOS:

ESSE EPISÓDIO FOI PRODUZIDO POR ANAÍRA SARMENTO, JEFERSON BATISTA E EU, HELOIZA BARBOSA

EDIÇÃO DE HELOIZA BARBOSA, PAULO PINHEIRO E DIOGO SARAIVA.

TRILHA SONORA ORIGINAL DE DIOGO SARAIVA E PAULO PINHEIRO

TRILHA ADICIONAL DE BLUE DOT SESSIONS

OS PITACOS NO ROTEIRO SÃO DE VALQUIRIA GOUVEA

AS ILUSTRAÇÕES DO EPISÓDIO DE NATÁLIA GREGORINI.

A SEGUNDA TEMPORADA DO FAXINA TEM APOIO DO GOOGLE PODCAST CREATORS PROGRAM E PRX - PUBLIC RADIO EXCHANGE, E DOS APOIADORES DO FAXINA NO APOIA.SE.

POR FAVOR, SE TU GOSTASTES DO CONTEÚDO DO FAXINA, APOIA O NOSSO TRABALHO COM R$ 10 POR MÊS, É O TEU APOIO QUE FAZ ESSE PODCAST ACONTECER.

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DE CORAÇÃO CHEIO UM MUITO OBRIGADA E ATÉ A PROXIMA. TCHAU!

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