Episode 3

T3-3. AS NOVAS CORES DE CAXIAS

O terceiro episódio da série "Cartografias de Migrações" vai te levar para uma cidade brasileira que foi fundada por imigrantes brancos europeus: Caxias do Sul. Mas, agora Caxias tem uma nova rota de imigrantes vindos do Senegal, Haiti e Venezuela. Como uma cidade quase toda branca está linda com os novos moradores quase todos negros? Escuta o episódio "AS NOVAS CORES DE CAXIAS"

Créditos:

Produção: Heloiza Barbosa e Jessica Almeida 

Roteiro e Edição: Jessica Almeida 

Assistência de Roteiro: Vinicius Luis, Heloiza Barbosa e Valquiria Gouvea

Trilha sonora original: Paulo Pinheiro

Trilha Adicional: Blue Dot Sessions, 

Mixagem e Design de Som: Paulo Pinheiro

Ilustrações e Animações: Natália Gregorini e Vinicius Cruz

Mídia Social: Nick Magalhães

Esse episódio usou áudios do canal de YouTube da TV Câmara de Caxias e de um festa tradicional Senegalesa.

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Transcript

Temporada 3 - CARTOGRAFIAS DE MIGRAÇÕES

Ep #3: AS NOVAS CORES DE CAXIAS

HELÔ: OI! EU SOU HELOIZA BARBOSA E BEM VINDO AO ESPAÇO DE SONS E HISTÓRIAS DO FAXINA PODCAST

O FAXINA É UM PODCAST QUE CONTA HISTÓRIAS DE IMIGRANTES BRASILEIROS NOS ESTADOS UNIDOS E TAMBÉM DE IMIGRANTES QUE HOJE ESTÃO CHEGANDO NO BRASIL. E TANTO OS ESTADOS UNIDOS, QUANTO O BRASIL, SÃO PAÍSES QUE HISTORICAMENTE TIVERAM CIDADES QUE FORAM CRIADAS POR IMIGRANTES QUE CHEGARAM E FIZERAM DA NOVA TERRA SUA CASA.

NO EPISÓDIO DE HOJE, CHAMADO “AS NOVAS CORES DE CAXIAS” TU VAIS OUVIR UMA HISTÓRIA CONTADA PELA JORNALISTA JESSICA ALMEIDA. ELA JUNTO COM O VINICIUS LUIZ ESTÃO COLABORANDO COM O FAXINA NESSA TEMPORADA.

A JESSICA VAI TE LEVAR PARA CAXIAS DO SUL, UMA CIDADE BRASILEIRA QUE FOI FUNDADA POR IMIGRANTES BRANCOS EUROPEUS COM A AJUDA DO GOVERNO BRASILEIRO DA ÉPOCA E QUE HOJE RECEBE MUITOS IMIGRANTES DO SENEGAL, HAITI E VENEZUELA.

RESPIRA, ABRE O CORAÇÃO E BOA ESCUTA!

JESSICA: EU QUERO COMEÇAR O EPISÓDIO TE LEVANDO PARA O MONUMENTO NACIONAL AO IMIGRANTE. ESSE MONUMENTO É UMA OBRA FORMADA POR UMA ESTÁTUA DE BRONZE E UM OBELISCO COM TRÊS PAINÉIS.

A ESTÁTUA QUE FICA NO TOPO É DE UM CASAL. UM HOMEM COM UMA ENXADA NO OMBRO E UMA BOLSA PENDURADA NA ENXADA. DO LADO DELE, UMA MULHER, CARREGA UM BEBÊ. E ENTRE OS DOIS TEM UM TRONCO DE ÁRVORE, QUE PARECE QUE FOI CORTADO MAS AO MESMO TEMPO TÁ FLORESCENDO OUTRA VEZ.

DE FEVEREIRO DE:

E DO SUL SE ESTABELECERAM, EM:

POR MUITO TEMPO, A VINDA DE PESSOAS DA ITÁLIA, DA ALEMANHA E DE OUTRAS REGIÕES DA EUROPA FOI ENTENDIDA COMO A SALVAÇÃO DO PAÍS. ESSE ENTENDIMENTO TEM RELAÇÃO COM IDEIAS EUGENISTAS.

UM RÁPIDO PARÊNTESE AQUI: NO ANO PASSADO, EU E O VINICIUS LUIZ PRODUZIMOS A PRIMEIRA TEMPORADA DO PODCAST PELO AVESSO, QUE FOI JUSTAMENTE SOBRE A EUGENIA. RESUMINDO BEM, A EUGENIA REUNIA UMA SÉRIE DE ESTRATÉGIAS PRA SUPOSTAMENTE (ENTRE ASPAS) “MELHORAR” A HUMANIDADE. UMA DAS ESTRATÉGIAS PRA ESSE MELHORAMENTO EQUIVOCADO ERA BRANQUEAR AS POPULAÇÕES, E O BRASIL INVESTIU PESADO NISSO NO FIM DO SÉCULO 19 E INÍCIO DO 20, INCENTIVANDO A VINDA DE IMIGRANTES EUROPEUS PRA CÁ.

CAXIAS FOI UM CASO EMBLEMÁTICO DESSA ESTRATÉGIA NO PASSADO. MAS AGORA, NO PRESENTE, A CIDADE TEM RECEBIDO NOVOS MORADORES VINDOS DE PAÍSES COMO HAITI, SENEGAL E VENEZUELA. ENTÃO, EU QUIS SABER COMO É QUE UMA CIDADE FUNDADA NA IMIGRAÇÃO ITALIANA ESTÁ LIDANDO COM OS RECÉM-CHEGADOS DE OUTRAS ETNIAS.

[TRANSIÇÃO]

IAS DO SUL EM MAIO DESSE ANO,:

PELO CELULAR, A ÚNICA COISA QUE EU CONSEGUI ACHAR FOI UMA INFORMAÇÃO QUE EU JÁ TINHA: A DE QUE O MUSEU FUNCIONAVA DE TERÇA A SEXTA, DAS 9H DA MANHÃ ÀS 5H DA TARDE. EU FUI LÁ NUMA SEXTA, POR VOLTA DE 10H30, ENTÃO ERA PRA TÁ ABERTO. PERTO DO MONUMENTO TINHA UM TRAILER QUE VENDIA LANCHES, E EU FUI LÁ PEDIR INFORMAÇÃO.

Jessica: A entrada é ali no pé do monumento mesmo?

Vendedora: É ali naquela, nas escadarias, tu sobe as escadarias ali… e bem embaixo ali do monumento ali, tem a porta e ali dentro é que tem a visitação.

Jessica: Ah tá, e a porta tá fechada…

Vendedora: É. Só sei que tem muita gente que reclama de… os turistas, de virem de fora às vezes esse horário, pra vir visitar, chega ali tá tudo fechado.

Jessica: Uhum.

Vendedora: Eles vêm até aqui me perguntar como é que funciona pra o atendimento, eu digo ’bah, não sei lhe informar’ (risos).

Jessica: Então tá bom, brigada!

Vendedora: Imagina!

JESSICA: NA FALTA DO MUSEU, EU PROCUREI UMA HISTORIADORA DA CIDADE.

Vania: Meu nome é Vania Herédia, sou pesquisadora da Universidade de Caxias do Sul.

JESSICA: A PROFESSORA VANIA É DOUTORA EM HISTÓRIA, ELA PESQUISA IMIGRAÇÃO EM CAXIAS E COORDENA O NÚCLEO DE ESTUDOS MIGRATÓRIOS DA UNIVERSIDADE.

Vania: …E durante, assim, muitas décadas as migrações que aconteceram aqui no município de Caxias, elas sempre eram migrações constituídas por pessoas da mesma etnia. (…) No início italianos, tá?

CONTOU QUE A PARTIR DOS ANOS:

Vania: Eram estados que tinham culturas próximas à questão dos europeus na sua formação inicial.

JESSICA: SEGUNDO A HISTORIADORA, TAMBÉM NOS ANOS 90, CAXIAS DO SUL COMEÇA A DIVERSIFICAR SUAS ATIVIDADES ECONÔMICAS E, ALÉM DE POLO INDUSTRIAL, SE TORNA TAMBÉM UM POLO DE SERVIÇOS, COMÉRCIO, TRANSPORTES. ENTÃO, HAVIA EMPREGOS E UMA DEMANDA POR MÃO DE OBRA.

MAS FOI EM:

Vania: Não é que antes não existiam, por exemplo, migrações internacionais. Sempre aconteceram. Mas não com grandes fluxos, que chegassem a mudar as dinâmicas da cidade. E que afetasse o questionamento de comportamento, inclusive... de uma maneira, assim, da consciência coletiva da cidade, né.

S E SENEGALESES, POR VOLTA DE:

O O ÚLTIMO CENSO DO IBGE, DE:

ESSES DADOS ME DEIXARAM QUERENDO SABER: COMO É A VIDA DE IMIGRANTES NEGROS EM UMA CIDADE QUASE TODA BRANCA E QUE PASSOU MAIS DE 100 ANOS RECEBENDO SÓ GENTE DE CULTURA E APARÊNCIA PARECIDAS? E TAMBÉM, COMO É QUE CAXIAS DO SUL TÁ REAGINDO À FORMAÇÃO DE COMUNIDADES DE HAITIANOS, SENEGALESES, E AGORA DE VENEZUELANOS?

[TRANSIÇÃO]

JESSICA: QUANDO ESTIVE EM CAXIAS, EU TAMBÉM FUI EM OUTRO LUGAR.

Jessica:​​ ó, é uma rua bem no centro da cidade… acho que é a principal rua comercial.

JESSICA: É A AVENIDA JÚLIO DE CASTILHOS, QUE É A VIA MAIS ANTIGA DE CAXIAS E HOJE É UMA REGIÃO COMERCIAL, COM MUITAS LOJAS…

Jessica: e também tem muitos ambulantes vendendo coisa em… tipo uns tapetes, com coisa por cima. E alguns parecem senegaleses, outros não.

JESSICA: EU TINHA OUVIDO DIZER QUE OS SENEGALESES TÊM UMA PARTICULARIDADE QUE É TRABALHAR COM COMÉRCIO. ENTÃO, MUITOS DELES SE ESTABELECERAM COMO AMBULANTES NESSA REGIÃO. OS QUE EU VI TAVAM VENDENDO COISAS DE VESTUÁRIO.

Jessica: Basicamente, coisas de frio… até que tem umas ‘meinha’ bonitinha.

JESSICA: TAMBÉM VI ALGUNS VENDENDO PEQUENAS ESCULTURAS E TECIDOS AFRICANOS. MAS EU PRECISAVA FALAR COM UM SENEGALÊS ESPECÍFICO.

Billy: E lá no Senegal, o trabalho mais popular, mais que, mais que a gente faz é comércio. Então, nós somos povo que gosta de fazer comércio.

JESSICA: ESSA VOZ É DO BILLY. NA VERDADE, O NOME DELE É

Billy: Meu nome é Abdou Lahat Ndiaye, mas mais conhecido como Billy.

MENTE É EM CAXIAS DO SUL. EM:

Billy 3: Eu tô aqui nos Estados Unidos, eu tenho amigos que estão no Brasil,

JESSICA: POIS ENTÃO, EM:

Billy: Eu digo que hoje em dia eu nunca vou… nunca vou ter uma… uma cidade igual que Caxias, tipo recebimento, os amigos, com todo que eu consigo. Eu digo que todo que eu consigo na minha vida foi ali em Caxias. Nunca vou ter uma cidade assim, entendeu? As pessoas era a gente é legal. Ali, eu aprendi muito na verdade, tipo assim, entendeu? Até melhorei, sabe, melhorou minha… como que a gente diz, né, aprendi muito pra me melhorar com o pessoal de Caxias.

JESSICA: MAS EU VOU COMEÇAR A CONTAR A HISTÓRIA DO BILLY PELO INÍCIO DA SUA VIDA LÁ NO SENEGAL.

DIFERENTE DO BRASIL, NO SENEGAL MUITAS LÍNGUAS SÃO FALADAS PELA POPULAÇÃO. POR EXEMPLO, TEM O ÁRABE, FALADO NAS PRÁTICAS RELIGIOSAS DO ISLÃ; O FRANCÊS, POR CONTA DA COLONIZAÇÃO FRANCESA QUE DUROU 3 SÉCULOS. E LÁ TAMBÉM TEM DEZENAS DE OUTRA S LÍNGUAS FALADAS POR DIFERENTES ETNIAS, A MAIS POPULAR DELAS É O WOLOF.

O BILLY APRENDEU WOLOF EM CASA E DEPOIS FOI PRA UMA ESCOLA FRANCO-ÁRABE, DE CURRÍCULO BILÍNGUE. ENQUANTO MORAVA LÁ, ELE ESTUDAVA E, QUANDO NÃO ESTAVA NA ESCOLA, AJUDAVA A MÃE NA LOJA QUE ELA TINHA. MAS TAMBÉM SE DIVERTIA.

Billy: Lá no cidade tinha muitas, não é festa, assim, de música, mas festa de religião, as coisas… eu participar, eu cantava, dançava tipo, entendeu? Era um guri animado, tipo assim.

JESSICA: BILLY DISSE QUE MORAVA EM UMA CIDADE PEQUENA NA REGIÃO DO THIÈS, QUE FICA A CERCA DE 70KM DA CAPITAL, DAKAR.

Billy: É, um país, como eu sempre digo, né, o Senegal um país pequeno, né? Que tu corre um dia tu já sai fora do Senegal. Então, as cidades também são bem pequenas, né? Não tem muita distância.

JESSICA: MAS, SE POR UM LADO A CIDADE ONDE ELE MORAVA ERA PEQUENA, NÃO DÁ PRA DIZER O MESMO DA FAMÍLIA DE BILLY. O PAI DELE TINHA TRÊS ESPOSAS. SIM, PORQUE MAIS DE 95% DA POPULAÇÃO DO SENEGAL É MUÇULMANA, E PELA LEI ISL MICA UM HOMEM PODE SE CASAR COM ATÉ QUATRO MULHERES.

Billy: Daí, então, eu tenho bastante irmão. E todas minhas irmãs– aquela época, tinha uma irmã que mora no Estados Unidos, e tem outra que mora na Itália... tem outra que mora na Grécia e tem uma que morava na Argentina.

JESSICA: ASSIM COMO A FAMILIA DE BILLY É NUMEROSA, O SENEGAL TAMBÉM É. ELE É MENOR QUE VÁRIOS ESTADOS DO BRASIL, INCLUINDO O RIO GRANDE DO SUL, ONDE FICA CAXIAS. MAS NESSE PEQUENO ESPAÇO DE MENOS DE 200 MIL KM² VIVEM MAIS DE 17 MILHÕES DE PESSOAS. NA REGIÃO DO THIÉS, ONDE BILLY NASCEU, VIVEM CERCA DE 2 MILHÕES E MEIO DE HABITANTES.

BILLY CONTOU QUE A VIDA NO SENEGAL NÃO É FÁCIL. MAS A DELE PARTICULARMENTE ATÉ QUE ERA TRANQUILA, JUSTAMENTE PORQUE ESSES IRMÃOS QUE ESTAVAM MORANDO EM OUTROS PAÍSES AJUDAVAM A FAMÍLIA ENVIANDO REMESSAS DE DINHEIRO.

Billy: Eu digo que Senegal, não tem pobreza que diz ’ah, não almoçou hoje, não janta hoje’, por causa de ajuda. Cada um ajuda o outro que possa, entendeu?, a gente não tinha muita, muita coisa, mas a gente não passava necessidade, porque tinha nossos irmão que tão fora que tava ajudando, né, fazendo tudo pra nossa família lá.

JESSICA: MAS O QUE FALTA MESMO NO SENEGAL, SEGUNDO BILLY, É EMPREGO.

Billy: Por quê? Lá, tu estuda até conseguir teu diploma, tá, tu sai mesmo na faculdade, as coisa, faz tudo que tem que fazer, daí não tem trabalho (...) Então, por isso que muitos guris não querem estudar, não quero nada, porque tu estuda e depois tu não vai ter trabalho profissional (...). Então, todo mundo pensa que tem que viajar, tem que sair do país para conseguir outra coisa.

JESSICA: A POBREZA, A FALTA DE EMPREGO GERA ESSAS MIGRAÇÕES FORÇADAS DAS CIDADES. E A VIDA DAS PESSOAS QUE FICAM TORNA-SE DEPENDENTE DAS REMESSAS DE DINHEIRO QUE CHEGAM DE FORA. ISSO ACONTECE COM BRASILEIROS DAS PEQUENAS CIDADES DE MINAS GERAIS QUE MIGRAM PARA OS ESTADOS UNIDOS, COMO A GENTE OUVIU EM EPISÓDIOS ANTERIORES DO FAXINA. E ISSO ACONTECE COM A FAMÍLIA DE BILLY NO SENEGAL.

PARA ESCAPAR DA OPRESSÃO DA FALTA DE POSSIBILIDADES DE FUTURO, BILLY ENTÃO FEZ O QUE SEUS IRMÃOS E MUITOS HOMENS DO SENEGAL FAZEM, ELE MIGROU.

Billy: Nós somos imigrantes, saímos do nosso país para buscar uma melhora da nossa vida. Aonde que a gente sabe que é melhor, a gente vai lá.

JESSICA: PRIMEIRO, BILLY QUERIA SE JUNTAR AO IRMÃO NOS ESTADOS UNIDOS, MAS NÃO CONSEGUIU VISTO. DEPOIS, ELE ESCUTOU QUE HAVIA TRABALHO NO BRASIL.

MAS CONSEGUIR UM VISTO PARA O BRASIL TAMBÉM ERA DIFÍCIL, O MAIS COMUM ERA CONTRATAR COIOTES. EM MUITOS CASOS, ESSES COIOTES LEVAVAM A PESSOA ATÉ O EQUADOR, ONDE NÃO ERA EXIGIDO PASSAPORTE NEM VISTO, E DE LÁ ATÉ A FRONTEIRA COM O BRASIL. MAS, NO CASO DO BILLY, ELE COMPROU UM VISTO. CUSTOU NA ÉPOCA R$ 25 MIL E QUEM PAGOU FOI O IRMÃO DELE DOS ESTADOS UNIDOS.

ENTÃO, EM:

SÓ QUANDO CHEGOU AQUI, BILLY PASSOU A ENTENDER ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE O PAÍS. COMO POR EXEMPLO O TAMANHO DO BRASIL – QUE SÓ PRA VOCÊ TER UMA IDEIA É 43 VEZES MAIOR QUE O SENEGAL.

Billy: A gente não tinha ideia, tipo assim, entendeu? De, de que Brasil é grande, de que tem que pegar avião dentro do Brasil.

JESSICA: LÁ EM FORTALEZA, BILLY PEGOU UM ÔNIBUS PARA O RIO DE JANEIRO. PASSOU 3 DIAS POR LÁ, E DEPOIS FOI PRA SÃO PAULO, ONDE FICOU MAIS UNS DIAS. NESSE POUCO TEMPO, ACHOU QUE TALVEZ FOSSE MELHOR NÃO PERMANECER NO BRASIL.

SEGUNDO A HISTORIADORA VANIA HERÉDIA, QUE VOCÊ OUVIU NO INÍCIO DO EPISÓDIO, OS SENEGALESES TÊM UMA CARACTERÍSTICA QUE É DE GRANDE AJUDA NESSES MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS.

Vania: Os senegaleses, eles se organizam com mais rapidez, eles trabalham melhor em rede.

JESSICA: POR ESSAS REDES DE COMUNICAÇÃO, BILLY RECEBEU A INFORMAÇÃO DE QUE A ARGENTINA PARECIA UM LUGAR MAIS PROMISSOR. ISSO PORQUE LÁ ERA POSSÍVEL TRABALHAR COM COMÉRCIO, E OS SENEGALESES TÊM AFINIDADE COM ESSA PRÁTICA.

ELE FOI PRA BUENOS AIRES E PASSOU MAIS OU MENOS UM ANO LÁ TRABALHANDO COMO VENDEDOR AMBULANTE. MAS FREQUENTEMENTE IA PARAR NA DELEGACIA POR SE ENVOLVER EM BRIGAS COM ARGENTINOS RACISTAS.

Billy 12: Por semana, eu briguei, brigava duas vezes, sabe? Chamava polícia… e eu cheguei um momento que até os polícia me conheceram. Tipo assim, entendeu? Dizendo: ’Ah, tu de novo. Eles te pergunta, te xinga, te fala coisa…. eu não sei como que eu posso dizer isso mas, pra eles é tranquilo, te chamando de… te chama —-----, anda tua pais, —-------. Para eles é normal, eu acho, na Argentina, entendeu?

JESSICA: BILLY OUVIU INSULTOS QUE NENHUMA PESSOA DEVE ESCUTAR NA VIDA, POR ISSO NÃO REPRODUZIMOS O ÁUDIO.

ESSA SITUAÇÃO FOI GERANDO DESGASTE E, AO MESMO TEMPO, PELA REDE DE COMUNICAÇÃO ENTRE OS SENEGALESES, ELE SOUBE QUE O BRASIL ESTAVA DANDO DOCUMENTO E QUE HAVIA EMPREGO NO RIO GRANDE DO SUL.

Billy: Sabe, a gente dá valor ao Brasil, porque a gente passou muito, muitas coisas na Argentina, entendeu?

JESSICA: EM:

RAÇÃO INTERNA DESDE OS ANOS:

Maria do Carmo: Chegavam, naquela época, 7, 10, 15 pessoas por semana. Não havia espaço no albergue.

IA FOI COORDENADORA DO CAM DE:

O BILLY APRENDEU PORTUGUÊS RÁPIDO PORQUE GOSTAVA DE CONVERSAR COM QUEM QUER QUE FOSSE. FOI ELE QUE FEZ A MEDIAÇÃO DO CAM COM OS SENEGALESES QUE TINHAM ACABADO DE CHEGAR.

Maria do Carmo: E aí, de fato, a gente começou a provocar a comunidade, 'olha aqui ó, eu tô com três pessoas que não têm onde dormir. Será que não tem ninguém mesmo que já tá aí organizado, que poderia acolher ao menos até a pessoa conseguir se organizar?'. E aí eles também começaram a pensar esse aspecto, assim.

Billy: Eu disse para os senegaleses: ’olha, a gente, eu acho que tem que se organizar, porque começaram a chegar muito senegaleses, e daqui a pouco se a gente não se organiza, a gente que vai chegar não vai ter lugar para ficar, não vai ter comida. Então vamos se organizar para que ele chega aqui se precisa algo’.

JESSICA: FOI ASSIM QUE NASCEU A ASSOCIAÇÃO DE SENEGALESES DE CAXIAS DO SUL, SOB A PRESIDÊNCIA DO BILLY.

A PROPOSTA DA ASSOCIAÇÃO ERA SIMPLES, ELES SE ENCONTRAVAM SEMPRE NO ÚLTIMO DOMINGO DO MÊS PARA DISCUTIR AS DEMANDAS E CADA UM CONTRIBUIA COM 5, 10 REAIS PARA AJUDAR NOS PROBLEMAS DOS OUTROS. SIMPLES, MAS FEZ TODA DIFERENÇA.

Vania: Eles conseguiram coisas inéditas, assim, fazer culto dentro da Câmara de Vereadores, fazer culto dentro da igreja, do salão paroquial (risos), sabe?

JESSICA: AQUI É A PROFESSORA VANIA HERÉDIA OUTRA VEZ.

Vania: Eles tinham um jeito de negociar, de explicar que eles estavam precisando fazer aquilo, que aquilo fazia parte da cultura. Mesmo as festas, né.

Billy: Ali no Brasil a gente acompanhou várias causas, vários problemas, vários pessoa que tá no Brasil, mas precisa voltar para o Senegal, a gente comprou passagem. A gente alugava uma casa, para quem tá chegando.

JESSICA: FOI ASSIM QUE O BILLY ACABOU SE TORNANDO UMA LIDERANÇA ENTRE OS SENEGALESES. E É NESSE SENTIDO QUE ELE FALA QUE NUNCA TERÁ UMA EXPERIÊNCIA PARECIDA EM OUTRA CIDADE.

Billy: Tipo, tu vai lá no meus amigos, no Senegal, que me conhece, que eu cresci com eles. Tu diz que ’Ah, você sabe que Billy é o presidente era Associação dos Senegaleses que moravam em Caxias?’ Eles vão te dizer ’não, como assim? Billy, um cara que brinca muito. E ali em Caxias eu me tornei uma pessoa responsabilidade, tipo assim, entendeu? Ali em Caxias, eu não pude— chegava um momento eu não posso nem brincar, entendeu? De tanta responsabilidade que eu tenho. E todo isso foi um aprendimento, entendeu? (…) Caxias me faz quem eu sou agora. Então Brasil, Caxias me faz uma pessoa que eu nunca ia ser na vida.

JESSICA: O BILLY FALA DA IRMÃ MARIA DO CARMO COMO UMA GRANDE INSPIRAÇÃO PRA QUE ELE SE TORNASSE ESSA LIDERANÇA.

Billy: Quando eu fazia algo e aí os gurizada diz ’nossa, sua coração, não sei o quê’. Eu diz ’ah, eu aprendi na irmã Maria’, entendeu? Porque eu vi que ela faz algumas coisas, que nem sei se fosse eu, eu ia fazer isso para minha comunidade, e ela fazia para pessoa que ela não conhece, entendeu? E ainda ela não tem preconceito de nada.

JESSICA: E ELA AGIA ASSIM MESMO TENDO OUTRA FÉ.

Billy: Eu nunca vi que ela abre boca dela dizendo assim, ó ’por que você não entra na nossa religião?’ Quando a gente queria fazer oração, tudo, quando a gente quer fazer festa de religião, ela que ia atrás pra sala, ela que ia atrás para tudo.

JESSICA: OK, A EXPERIÊNCIA DO BILLY NO BRASIL PARECE TOTALMENTE DIFERENTE DO QUE ELE VIVEU NA ARGENTINA, CERTO? EM ALGUNS ASPECTOS, NEM TANTO. O MONSTRO RACISMO, TAMBÉM EXISTE NO BRASIL, MAS SE MOSTRA DE FORMA DIFERENTE.

TALVEZ NÃO COM A MESMA FREQUÊNCIA E AGRESSIVIDADE. MAS QUANDO ACONTECIA FAZIA O BILLY LEMBRAR DE UMA COISA QUE O PAI DISSE PRA ELE ANTES DE DEIXAR O SENEGAL: QUE PODERIAM PASSAR 50 ANOS, MAS SEMPRE ALGO IRIA MOSTRÁ-LO QUE ELE NÃO É BRASILEIRO. E FOI UMA COISA QUE SE CONFIRMOU.

Billy: Até de olhar, as pessoas te olha de um jeito que… tu sabe que tu não é daqui, por isso que ela te olha assim, entendeu? Essa dificuldade preconceito as coisas a gente tem vontade de voltar no nosso país, entendeu?

JESSICA: MAS APESAR DISSO, BILLY AMA CAXIAS E AMA O BRASIL.

Billy: Não tem igual. Eu sei que não importa onde eu estou, Brasil, pra mim, é o melhor país do mundo.

PRIMEIROS ANOS DA DÉCADA DE:

OUTRO SENEGALÊS QUE FOI EMBORA FOI O DEMBA. MAS SOBRE ELE EU TE CONTO DEPOIS DO INTERVALO. FICA AÍ. JÁ JÁ A GENTE VOLTA.

[INTERVALO]

Fernando: Por gentileza, então, o seu nome e a sua idade.

lino: Isalino Antônio Piton,:

Fernando: De 44, então, senhor tem…?

Isalino: Oito. 78 ano.

Fernando: Seu Isalino, que que o senhor pensa a respeito das populações que vêm de outros países aqui pra Caxias do Sul, os senegaleses, os haitianos, qual é a sua opinião sobre isso, seu Isalino?

Isalino: Olha, eu, pra mim... tudo igual que nós também, né? Também eles têm o direito de viver, né?

Fernando: O senhor convive com alguém vindo desses países, seu Isalino?

Isalino: Olha, eu sempre convivi aqui na cidade, né? Praticamente. Vim da colônia guri, e aí faz 62 que eu moro aqui em Caxias.

Fernando: E desde quando o senhor percebe a presença deles aqui na cidade, seu Isalino?

Isalino: Eu acho que deve fazer uns dez anos já, né?

Fernando: O senhor viu a cidade mudar nesse período com a chegada deles de alguma forma que o senhor reconheça?

Isalino: Eu não, não… não vi nada mudar... Eu acho que... eles também tiraram muito emprego aqui dos brasileiro também, né?... É, mas cada um, cada um, né? Tem de viver também eles, né cara? Mas eu vou lá com esses caras geralmente tá me convidando pra jogar baralho. Tchau, tchau.

JESSICA: TEVE UM OUTRO IMIGRANTE DO SENEGAL QUE SE TORNOU BASTANTE CONHECIDO EM CAXIAS DO SUL

Demba: Meu nome é Demba Sokhna, sou natural do Senegal. Sou senegalês.

MBA CHEGOU A CAXIAS DO SUL EM:

A COMPARAÇÃO QUE O DEMBA FEZ SOBRE A CHEGADA DELE FOI COM UM CEMITÉRIO, UM LUGAR ONDE VOCÊ ENTRA E PARECE QUE TÁ TUDO TRANQUILO, MAS É SÓ ABRIR UM TÚMULO QUE SAEM VÁRIOS BICHOS…

OS BICHOS QUE COMEM OS CORPOS NO CEMITÉRIO PARA DEMBA REPRESENTAM O RACISMO BRASILEIRO.

Demba 3: A primeira coisa é que era um país racista. A expressão brasileira é racista, as pessoas são racistas, de uma forma mascarada, entendeu? Na tua frente é 'não, eu não sou racista', mas atrás de você, a conversa é outra coisa.

JESSICA: ASSIM COMO BILLY, DEMBA TINHA UMA VIDA MODESTA MAS SEM DIFICULDADES NO SENEGAL. ELE MORAVA NA CAPITAL, DAKAR. DEMBA TAMBÉM TEM MUITOS IRMÃOS QUE MIGRARAM PROS ESTADOS UNIDOS E PRA EUROPA E MANDAVAM REMESSAS DE DINHEIRO.

IMPORTANTE DIZER QUE AS REMESSAS DE DINHEIRO ENVIADAS POR EMIGRANTES SÃO RESPONSÁVEIS POR 10.5% DE TODA A ECONOMIA DO SENEGAL, SEGUNDO DADOS DO BANCO MUNDIAL.

MAS ANTES DE TOMAR A DECISÃO DE DEIXAR SUA CIDADE E MIGRAR PARA O BRASIL, DEMBA FEZ FACULDADE LÁ NO SENEGAL. ELE CURSOU LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS, E ALÉM DO WOLOF, DO ÁRABE E DO FRANCÊS, ELE TAMBÉM APRENDEU INGLÊS E RUSSO.

UELA ÉPOCA, INÍCIO DOS ANOS:

Demba: Quando eu cheguei já não era... não era a mesma coisa. Era um país totalmente diferente do que a gente pensava.

JESSICA: A PRINCIPAL DECEPÇÃO E DIFICULDADE PRA ELE FOI NOTAR QUE O BRASIL É UM PAÍS MUITO DEPENDENTE DE UM ÚNICO IDIOMA, AO CONTRÁRIO DO SENEGAL, COM SUAS TANTAS LÍNGUAS. JUNTO COM O RACISMO E OUTRAS QUESTÕES, ISSO DESPERTOU NO DEMBA A VONTADE DE IR EMBORA.

Demba: Um país como o Brasil mais de 250... quase 250 milhões de habitantes, a única língua que fala de uma forma oficial e global é... é o português. Então, o cara que estudou, talvez, se não falar português, não adianta.

JESSICA: OU SEJA, MESMO FALANDO CINCO LÍNGUAS, O ÚNICO TIPO DE EMPREGO QUE ELE CONSEGUIRIA ERA O QUE DEMANDAVA TRABALHO BRAÇAL. DEMBA ACABOU INDO TRABALHAR NUMA MONTADORA E NA EMPRESA SOUBERAM QUE ELE ERA POLIGLOTA. ENTÃO, PROMETERAM A ELE UM POSTO NA ÁREA DE MARKETING E COMÉRCIO EXTERIOR.

Demba: Aí, eu fiquei um ano esperando, um ano e meio esperando, dois ano esperando, não falaram nada... Só fica me prometendo, prometendo 'ah, não vai embora, fica, nós vamo te colocar, vamo te colocar'.

JESSICA: FORAM TRÊS ANOS ESPERANDO O CUMPRIMENTO DA PROMESSA QUE NUNCA VINHA. CANSADO DE ESPERAR, DEMBA PEDIU DEMISSÃO E ABRIU UM ESTÚDIO NUMA GALERIA NO CENTRO DE CAXIAS DO SUL, A “DEMBA ÁFRICA BOUTIQUE E ACESSÓRIOS”. LÁ ERA POSSÍVEL CORTAR O CABELO E FAZER TRANÇAS AFRICANAS. TAMBÉM ERAM VENDIDOS TECIDOS, ESCULTURAS, JOALHERIAS, INSTRUMENTOS, TUDO VINDO DA ÁFRICA. ERA O GANHA PÃO DELE, MAS TAMBÉM ERA UM TIPO DE AFIRMAÇÃO PARA ELE E OUTROS IMIGRANTES.

Demba: Porque eu consegui essa loja no meio do centro da cidade, entendeu? Que não era tão fácil, né. Também, eu consegui essa loja que, de uma certa forma, foi um ponto de reencontro, né, As pessoas vão pra lá pra comer, pra beber. Entendeu? Para tirar dúvidas. um problema de documento, entendeu?

INDA DE SAIR DA MONTADORA, EM:

Demba: O racismo, sabe, é uma coisa que é visível no Brasil, querendo ou não, qualquer estrangeiro já passou por uma experiência. Você entra..., você entra num num restaurante, você vê isso aí. Você entra no mercado, você vê isso aí, né? Você tá entrando no mercado, aí o vigia vai atrás de ti, entendeu? Você cumprimenta uma pessoa, naquela época, você vai no office cumprimentar uma pessoa, na tua frente ele usa álcool gel...

JESSICA: PODE NÃO SER UMA COISA DIRETA COMO AS OFENSAS QUE O BILLY OUVIA NA ARGENTINA, MAS NÃO QUER DIZER QUE MACHUCA MENOS.

Demba: Tem uma série de crime racial, que não é físico, né? Mas é metafísica, né? Coisas que tu não vê, não toca, mas você vê, você sente, entendeu? Uma rejeição mental, uma rejeição... como é que é, energético, assim... a pessoa não quer ficar perto de ti, a pessoa não quer ficar do seu lado. Então, é uma loucura, uma loucura…

ÃO NEGRA, DE MODO GERAL. EM:

MAS, MAIS QUE LIDAR COM O RACISMO BRASILEIRO, QUE EXISTE DO OIAPOQUE AO CHUÍ, ERA PRECISO LIDAR TAMBÉM COM DIFICULDADES ESPECÍFICAS DE CAXIAS DO SUL.

Vania: Essa questão da cultura caxiense, ela sempre foi uma cultura muito conservadora, muito fechada, né?

JESSICA: AQUI NOVAMENTE É A HISTORIADORA VANIA HERÉDIA.

Vania: Então, os caxienses aceitavam a mão de obra que vinha de fora para trabalhar, assim, mas não pra ser igual a eles (risos). Tem certa discriminação, aí,

JESSICA: A VANIA ME DISSE QUE HISTORICAMENTE CAXIAS NÃO TEVE ESCRAVIZADOS, POR ISSO A CIDADE SE TORNOU MAJORITARIAMENTE BRANCA, COMO INDICAM OS DADOS DO IBGE. ISSO CERTAMENTE CONTRIBUIU PARA A DISCRIMINAÇÃO COM A CHEGADA DOS IMIGRANTES NEGROS.

Demba: o branco sempre, né, nos pisou em cima do negro, né? (+) Todo mundo sabe que a oligarquia ocidental tá ali. Então, a raça ocidental, ele... o mundo sabe que os europeus se acham o melhor do mundo.

JESSICA: UM FATO IMPORTANTE QUE, SEGUNDO A VANIA HERÉDIA, É MUITAS VEZES ESQUECIDO PELA POPULAÇÃO DE CAXIAS DO SUL, É QUE A IMIGRAÇÃO EUROPEIA FOI EXTREMAMENTE BENEFICIADA PELO GOVERNO IMPERIAL. OS ITALIANOS RECEBERAM TERRA, LUGAR PRA VIVER, SEMENTES, E INSTRUMENTOS DE TRABALHO. OU SEJA, VIERAM COM VÁRIAS GARANTIAS E PRIVILÉGIOS QUE PROPORCIONARAM UMA EXPERIÊNCIA IMIGRATÓRIA DE SUCESSO.

Vania: E isso não é repassado nas gerações, é repassado como se esse esforço, ele fosse individual e não coletivo.

JESSICA: DEMBA ENFRENTOU TODOS ESSES ESTIGMAS DA SOCIEDADE DE CAXIAS USANDO A CULTURA DE SEU PAÍS COMO INSTRUMENTO DE DIÁLOGO. MAS ELE TINHA UMA ALIADA NA SUA LUTA: A IRMÃ MARIA DO CARMO.

Maria do Carmo: …assim, 'olha, eles têm uma comida diferente, que bacana! Olha só, eles têm um rito diferente, olha a música que legal!' Inclusive, houve alguns processos de integração com artistas locais, né? Que foi muito bacana, né? (...) Eu acho que isso foi fundamental também para ir quebrando alguns preconceitos, assim, para as pessoas...

JESSICA: IRMÃ MARIA DO CARMO TAMBÉM AJUDOU A DESMENTIR VÁRIOS BOATOS, INCLUSIVE O DE QUE OS SENEGALESES COMIAM CACHORRO.

Maria do Carmo: Isso doía muito para eles, tanto que na marcha - nós realizamos naquela época duas três marchas dos imigrantes, né, na região, e eles chegaram a fazer um cartaz assim: “nós somos muçulmanos, a gente não come cachorro, não come porco”

JESSICA: EM OUTRO MOMENTO, UMA PROFESSORA LIGOU DIZENDO QUE OS PAIS DAS CRIANÇAS DA ESCOLA ESTAVAM FALANDO COISAS ESTRANHAS SOBRE OS IMIGRANTES, E ELA QUERIA APRESENTAR A ELAS OUTRA PERSPECTIVA. ENTÃO, A IRMÃ MARIA LEVOU IMIGRANTES NEGROS PRA FALAR SOBRE SEUS PAÍSES COM OS PEQUENOS, QUE TINHAM DOIS, TRÊS ANOS E ERAM MAJORITARIAMENTE BRANCOS. MUITOS FICARAM ASSUSTADOS AO VÊ-LOS.

Maria do Carmo: E eles se impactaram ao ver, né migrantes, né que eram africanos, negros... e talvez não estavam socializados, acostumados a ter esse tipo de contato. E alguns de fato começaram a chorar. (...) E aí tu entende, disso tudo, é que como a questão do racismo do preconceito, ela é uma construção, né? E que ela vem, é uma construção social que ela vai sendo feita, né?

JESSICA: MAS HOUVE PROGRESSO. DEMBA COMPARA AS CONQUISTAS NA COMUNIDADE A UMA GUERRA.

Demba: Uma guerra de falas, de publicida de, né, nas universidades, nas escolas, entendeu, na imprensa... Então, nós conseguimos forçar a barreira,. Então, graças a Deus, nós conseguimos. E conseguimos bastante coisa, estabelecemos muitas coisas…

UE TEVE TRÊS EDIÇÕES ENTRE:

Demba: O África Fashion e Diversidade eu criei para poder mostrar para a comunidade brasileira em geral, Caxias em particular, que a imigração não se limita só em vender na rua...

JESSICA: ERA UMA FORMA DE MOSTRAR A CULTURA AFRICANA, COM EXPOSIÇÕES DE ARTE E FOTOGRAFIA, DESFILES DE MODA, ALÉM DE RODAS DE CONVERSA E MESAS DE DEBATE, COM PESQUISADORES E EXPOENTES DA CULTURA AFRO. ERA UMA PROPOSTA DE DIÁLOGO INCLUSIVE COM OS PRÓPRIOS NEGROS BRASILEIROS.

Demba: Era uma forma de ver também esses negros que vivem uma alienação cultural muito grande. O que que eu chamo de alienação cultural? É o negro que não se enxerga como negro, sabe? Que tem muito no Brasil. Porque eles têm medo de exclamar a a o seu negritude.

TAGONIZOU O CURTA LANÇADO EM:

MAS NO SEGUNDO SEMESTRE DE:

HOJE ELE VIVE NA INGLATERRA. E ME DEU QUATRO RAZÕES PRA TER IDO EMBORA: 1) A EXTREMA DESVALORIZAÇÃO DO REAL; 2) O ATUAL PRESIDENTE DA REPÚBLICA; 3) A EVASÃO DE SENEGALESES DE CAXIAS E O IMPACTO QUE ISSO TEVE PRO ESTÚDIO. POR FIM, A QUARTA RAZÃO: POR TER SIDO NATURALIZADO BRASILEIRO, ELE AGORA CIRCULA PELO MUNDO COM MAIS FACILIDADE.

Demba: Aí, isto aí me puxou a ir no Senegal, em setembro de agora. Eu fiquei lá três meses, aí depois fui para Portugal. Aí do Portugal, eu fui para Espanha. Da Espanha eu veio para Inglaterra. Agora tô na Inglaterra, faz uns seis meses aí.

LENDO ATUALMENTE, SETEMBRO DE:

Demba: Amar, a gente ama o Brasil. Gostar, a gente gosta. Mas chega algum momento na sua vida, você tem que tomar decisões.

JESSICA: DEMBA SENTE QUE TODA A LUTA EM CAXIAS DO SUL VALEU A PENA.

Demba: Caxias me ofereceu tudo, claro. Me deu uma honra muito grande, eu encontrava a pessoa na rua e fala 'eu ouvir a sua fala na rádio'. Ah, eu gostei ou isto, ou aquilo. Mesmo que eu não ganhasse nada, em termos de troca material, me deixava orgulhoso, porque um pouco tô tirando o meu tempo para defender a minha comunidade, pra defender meu povo.

[TRANSIÇÃO]

Fernando: Então, por gentileza, seu nome, sua idade e dizendo que autoriza a entrevista.

Liane: Liane Spanemberg, 43 anos, eu autorizo a entrevista pro Faxina Podcast.

Fernando: Que que a senhora pensa a respeito da população migrante aqui na cidade?

Liane: Ah, eu acho que eles precisam de um lugar, e as pessoas sempre buscam o pertencimento. Então, se eles não têm muito subsídios aonde eles estão, a gente precisa, como comunidade, apoiar as outras comunidades. A gente tem que se botar no lugar e se fosse com a gente, né? Claro que daí deveria ter mais políticas públicas, mais cooperação entre, ãh, quem está no comando, os líderes. E a comunidade em si no fim tem que acolher. Tem que acolher porque são gente como a gente. E eles fazem a parte deles, a gente tem que fazer a nossa parte se ajudando né? Cooperando um com os outros.

Fernando: Perfeito. Obrigado, viu? Um bom dia.

JESSICA: DEPOIS DE FALAR COM O BILLY E COM O DEMBA, EU PRECISAVA FALAR COM ALGUM SENEGALÊS QUE AINDA ESTIVESSE EM CAXIAS DO SUL, ENTENDER A PERSPECTIVA DE ALGUÉM QUE TENHA DECIDIDO FICAR, MESMO NUM CONTEXTO DE CRISE.

anos, moro em Caxias desde:

ES CADASTRADOS PELO CAM ENTRE:

Binetou: Eu nasci no Dakar mesmo, eu sou do Dakar. Eu fiz minha escolaridade lá, até a universidade, a minha licenciatura também.

JESSICA: BINETOU É DE UMA FAMÍLIA SÓ DE MULHERES, AS QUATRO IRMÃS DELA CONTINUAM NO SENEGAL. ELA CURSAVA ADMINISTRAÇÃO, MAS NÃO CHEGOU A SE FORMAR, PORQUE NÃO CONSEGUIU MAIS PAGAR A FACULDADE. O SALÁRIO DO EMPREGO QUE ELA TINHA EM UM BANCO ERA BAIXO, COMO OS DA MAIOR PARTE DOS EMPREGOS DA CIDADE. E OS PAIS, JÁ IDOSOS, NÃO CONSEGUIAM AJUDAR. ALÉM DISSO, PRECISAVA CUIDAR DO FILHO, PORQUE QUANDO OSMANE DEIXOU O PAÍS ELA ESTAVA GRÁVIDA.

O MARIDO EMIGROU ATRÁS DE MELHORES CONDIÇÕES DE VIDA. MAS ELE NÃO VEIO DIRETO PRO BRASIL, PRIMEIRO FOI PRA ARGENTINA.

Binetou: Mas lá a vida é só vendas, ele não sabe vender.

JESSICA: OSMANE NÃO COMPARTILHA A AFINIDADE DOS SENEGALESES COM O COMÉRCIO.

Binetou: Aí ele saiu da Argentina pra vir aqui no Brasil. Vir aqui no Caxias mesmo. Aqui na praça ele desceu aqui com 50 real, com as obras dele, porque ele artista, ele não sabe fazer outra coisa. Só desenhar.

JESSICA: MAIS UMA VEZ, A IRMÃ MARIA DO CARMO FOI FUNDAMENTAL.

Binetou: A Maria do Carmo é a primeira pessoa que acreditaram nele. Comprar pincel, vidro, pinta, tudo, porque ele não falava português, falava francês, um pouco de espanhol, mas tentava explicar que ele é artista.

JESSICA: OSMANE FOI CONTRATADO POR UMA EMPRESA, SE ESTABELECEU. E AO MESMO TEMPO FOI PRODUZINDO SUAS OBRAS, MOSTRANDO SEU TRABALHO. O PRIMEIRO QUADRO QUE ELE PINTOU, DEU DE PRESENTE PRA IRMÃ MARIA. ENQUANTO ISSO, NO SENEGAL, BINETOU BUSCAVA FORMAS DE VIR PRA FICAR JUNTO DO MARIDO. ELA ATÉ CONSEGUIU UMA BOLSA DE ESTUDOS NA FRANÇA, MAS PREFERIU VIR PRO BRASIL.

ntei entrar aqui no Brasil em:

JESSICA: O FILHO FICOU COM A MÃE DELA E AS IRMÃS, PORQUE ELA NÃO CONSEGUIU VISTO E PRECISOU PASSAR PELO TOGO. ERA ARRISCADO TRAZER O BEBÊ JUNTO.

Binetou: E aqui como meu primeiro trabalho aqui no Brasil eu fiz limpeza no Shopping Iguatemi. Eu deixei meu trabalho da administração no Senegal, eu venho aqui pra fazer limpeza. (...) Eu vim aqui, eu fiz limpeza, eu tô trabalhando com umas pessoas que eu não conheço, eu falo só francês, não falava português. Aí as pessoas tem muita discriminação, vou dizer mesmo. Chorei muito.

JESSICA: MESMO SEM FALAR PORTUGUÊS ELA ERA CAPAZ DE SENTIR A DISCRIMINAÇÃO. POR EXEMPLO: QUANDO A TRANSFERIRAM DA LIMPEZA DA PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO DO SHOPPING PRA DOS BANHEIROS.

Binetou: Eu não estou me acostumando pra fazer limpeza. Aí me deixaram o dia inteiro no banheiro pra tirar os toalhas, essas coisas. Mas eu não conseguia, eu vomitava. Não conseguia, eu chorava e vomitava.

JESSICA: BINETOU DISSE PRA UMA COLEGA QUE NÃO CONSEGUIA TRABALHAR E A MULHER RESPONDEU QUE A LEVARIA ATÉ O CHEFE, PRA SER MANDADA EMBORA.

Binetou: Aí eu disse, vamos lá, vamos falar com meu chefe porque eu estava bravo. Eu veio, eu disse me empresta o seu computador, ele me emprestou o computador. Eu fui no Google tradutor, eu escrevo em francês, traduzia em português, então ele também escrevia um português, ele traduziu. A gente conversou e até agora ele é meu amigo.

JESSICA: ELA NÃO PÔDE CONTAR COM A SOLIDARIEDADE DA COLEGA DE TRABALHO, MAS TEVE A DO CHEFE, QUE NÃO A MANDOU MAIS PARA OS BANHEIROS. FOI UM ANO E MEIO NO SHOPPING ENQUANTO O MARIDO SE ESTABELECIA COMO ARTISTA, VENDENDO QUADROS, FAZENDO AS PRIMEIRAS EXPOSIÇÕES. ATÉ QUE BINETOU RESOLVEU DEIXAR O EMPREGO PARA TRABALHAR COM OSMANE, ADMINISTRANDO A CARREIRA. ELES CRIARAM O COLETIVO DE ARTE E CULTURA AFRICANA MATH ART, QUE REÚNE OUTROS ARTISTAS SENEGALESES E TAMBÉM ALGUNS BRASILEIROS.

Binetou: Ele já fez mais ou menos quatro exposições.

JESSICA: OSMANE INCLUSIVE EXPÔS NO EVENTO ÁFRICA FASHION E DIVERSIDADE, ORGANIZADO PELO DEMBA. A ARTE CERTAMENTE TEM O PAPEL DE CONECTAR PESSOAS.

Binetou: Porque arte é uma coisa universal. Tu não gosta da pessoa, tu não gosta do cor da pessoa, mas o arte é uma coisa que tu vai gostar, quem que gosta da arte, gosta da arte.

J74 - HOJE EM DIA, OSMANE VENDE TRABALHOS EM PORTO ALEGRE, SANTA MARIA, E ATÉ EM SÃO PAULO E NO RIO DE JANEIRO.

Binetou: Mas pra vender tem que ser fora de Caxias. Aqui em Caxias tu vai vender mais devagar.

JESSICA: BINETOU NÃO CONSIDERA O CAXIENSE UM POVO MUITO ABERTO. E SENTE QUE AINDA EXISTE MUITO ESTEREÓTIPO SOBRE A ÁFRICA ENTRE AS PESSOAS.

Binetou: Eu estava vendendo minhas arte aqui, mas às vezes tu vê uma pessoa que veio conversando contigo, olhando as árvores pra te dizer onde tu mora. A gente não mora nas árvores. África tem móveis, tem carro, tem isso, tem isso. Aí eles não conhece nada, eles são muito fechados.

JESSICA: NÃO SÓ AS PESSOAS NA RUA DISCRIMINAM, ÀS VEZES QUEM ESTÁ PRÓXIMO, TAMBÉM.

Binetou: Tu mora no mesmo prédio, nos dois apartamento, eles não te cumprimentam. Até no elevador, tu entra, eles não vão querer entrar junto contigo. Vão esperar. Eles são fechados, não vou dizer racista, mas muito fechado.

JESSICA: NEM SEMPRE ELA REAGE CALADA A ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO.

Binetou: Às vezes eu responde na rua. Porque a minha língua… eu não calo minha boca, eu responde às vezes.

JESSICA: SE POR UM LADO A ATITUDE DE ALGUMAS PESSOAS DECEPCIONA E DÁ RAIVA, POR OUTRO NÃO DÁ PRA NEGAR QUE A AJUDA DE PESSOAS DA COMUNIDADE FOI FUNDAMENTAL.

Vania: Existem contradições nessas dinâmicas,

JESSICA: NOVAMENTE, A HISTORIADORA VANIA HERÉDIA.

Vania: mas é muito interessante que ao mesmo tempo que tu encontra algumas atitudes discriminatórias de pessoas assim na cidade, no centro, dizendo por que que eles não vão embora, não vão pra casa deles… por outro lado também reconhece uma certa aceitação e a importância da diversidade deles como elemento que vai permitir a cultura avançar, enriquecer, a troca de práticas culturais, de ritos, né?

Maria do Carmo: falando especificamente de Caxias, né?

JESSICA: ESSA É A IRMÃ MARIA DO CARMO.

Maria do Carmo: A partir da minha vivência, é uma cidade que ela é, de alguma forma também, muito solidária, né? Acho que existem expoentes ali dessa solidariedade, é uma cidade que talvez se pensa, e eu acho que... nesse sentido, a própria universidade ajuda muito nisso, né?

JESSICA: PRA IRMÃ, O FATO DE QUE EXISTE UM NÚCLEO DE ESTUDOS MIGRATÓRIOS NA UNIVERSIDADE É FUNDAMENTAL PARA ENTENDER OS PROCESSOS HISTÓRICOS LOCAIS DE IMIGRAÇÃO.

Maria do Carmo: E isso acho que criou também uma base para poder se pensar também esses outros fluxos migratórios, acho que o trabalho da Vania representa um pouco até isso, assim, né esse repensar com outra ótica a cidade que se vê como uma cidade de imigração, né. O único Monumento Nacional aos Imigrantes está em Caxias, né?

JESSICA: EM CAXIAS EXISTE PRECONCEITO COM OS RECÉM-CHEGADOS, MAS TAMBÉM EXISTE IDENTIFICAÇÃO.

Maria do Carmo: Muuuitas muitas vezes, Jéssica, muitas vezes. Eu perdi a conta de quantas vezes de pessoas que chegavam e diziam 'não, eu vou ajudar, porque eu sei que meus avós sofreram aqui quando chegaram e eles eram imigrantes', né?

JESSICA: UMA COISA ANTIGA, PERDIDA COM O TEMPO, QUE NÃO SÓ É RECUPERADA, MAS COMEÇA A SE ALARGAR.

Maria do Carmo: E inclui outras experiências de imigração que não é só a migração italiana, mas que começa a entender essas outras experiências de migração, como fazendo parte, né? Desse mesma, dessa mesma identidade de cidade de imigrantes.

JESSICA: E ASSIM A CIDADE ACOLHE A DIÁSPORA SENEGALESA. DIÁSPORA É UM CONCEITO QUE DEFINE UM GRUPO QUE MIGRA, MAS SE RECONHECE COMO COMUNIDADE ONDE ESTIVER E SE ARTICULA.

Maria do Carmo: Eles são uma grande comunidade, assim, e é muito legal de se reconhecer nessa comunidade também, né? Que ela é transnacional. Então, existe uma... existe essa coisa do lá e cá, do indo e vindo, né, e do se conhecer e de se reconhecer em diferentes espaços, né?

JESSICA: DE VOLTA À HISTÓRIA DA BINETOU: AOS POUCOS, AS COISAS FORAM SE AJEITANDO POR AQUI. ELA INCLUSIVE TEVE MAIS UM FILHO, QUE ESTÁ COM 6 ANOS, E UMA FILHA, QUE VAI FAZER UM ESSE ANO.

MAS, LEMBRA QUE ELA DEIXOU O PRIMEIRO AINDA BEBÊ NO SENEGAL QUANDO ELA VEIO PRA CÁ? POIS É, FOI MUITO DIFÍCIL TRAZÊ-LO. PORQUE ELA TEVE MUITOS PROBLEMAS COM BUROCRACIA. NO FIM DAS CONTAS A BINETOU SÓ CONSEGUIU JUNTAR O FILHO MAIS VELHO AO RESTO DA FAMÍLIA HÁ MENOS DE SEIS MESES.

Binetou: Meu filho que nasceu aqui, ele não é senegales, ele é gaúcho mesmo. Aí tu diz pra Bat que ele é do Senegal, ele diz ‘não, eu sou brasileiro, eu sou gaúcho'. Então, o hábito está lá, o arroz com feijão está lá em casa.

JESSICA: ELA TENTA MANTER HÁBITOS DO SENEGAL EM CASA PRA QUE A CULTURA NÃO SE PERCA, MAS O FILHO QUE NASCEU AQUI, POR EXEMPLO, SE RECUSA A SENTAR NO CHÃO PARA COMER. JÁ O QUE CHEGOU HÁ POUCO NÃO ESTÁ SE ADAPTANDO BEM A UM ASPECTO DA VIDA NO BRASIL:

Binetou: Ele não come a comida dos brasileiro. Até o diretor veio falar. Abdul tem que comer, a mãe não vai ficar sempre fazendo comida, aí ele “não, vou comer comida do Senegal”. Ele não se acostuma muito.

JESSICA: É POR CONTA DA FAMÍLIA E DE TUDO O QUE PASSOU PRA CONSEGUIR CHEGAR ATÉ AQUI, COM TODOS REUNIDOS E UMA VIDA DIGNA, MESMO COM DIFICULDADES, QUE BINETOU NÃO PRETENDE DEIXAR CAXIAS DO SUL.

Binetou: Pra mim, a estabilidade com a minha família é o primeiro lugar.

JESSICA: SAIR DAQUI, SÓ LEVANDO A FAMÍLIA INTEIRA, COM EMPREGO E DOCUMENTO GARANTIDO PARA TODOS.

Binetou: As coisa que eu estou conquistando aqui no Brasil que eu demorei pra conquistar eu não vou deixar pra sofrer nos outros lugares.

JESSICA: DE TODA FORMA, ELA ACHA IMPORTANTE TER EXPERIÊNCIAS EM LUGARES DIFERENTES, SEJA COMO TURISTA OU IMIGRANTE.

Binetou: Então, quem quer aprender a vida, quer mudar a vida, tem que viajar. Vai ter, vai aprender muita de coisas, muita mesmo. Porque ficar numa lugar só, tu não vai aprender a vida. Quem que tem oportunidade, vai fazer turismo. Quem que não tem oportunidade, vai emigrar. Mas vai viajar pra aprender a vida.

Gabriel: Eu, Gabriel Fontana, tenho 24 anos e autorizo essa gravação.

Fernando: Gabriel, que que tu pensa, qual a tua opinião a respeito da população dos migrantes que estão em morado, tem vindo pra Caxias nos últimos anos?

Gabriel: Na minha opinião sobre eles é que eles tem o mesmo direito e fazem mais ou menos a mesma coisa que os comerciantes caxienses. Vão pra outros países europeus ficam cinco a dez anos trabalhando lá, porque a moeda dos outros países é relativamente mais forte do que a nossa e voltam pra cá, abrem seu comércio, vivem sua vida bem. Em comparação a senegaleses, imigrantes haitianos, eles, relativamente, a moeda deles é mais fraca do que a nossa, então, eles têm a oportunidade de vim pro Brasil e então as pessoas olham pra eles e acham que eles são menos inteligentes ou desfavorecidos. Não, na verdade, ele eles são tão inteligentes quanto, ou mais do que a população em geral, né? A gente não sabe o que eles passam na pele quando a pessoa olha com o olhar torto, entendeu? A gente não sente o racismo que eles sentem.

S LUGARES QUE COMEÇOU LÁ EM:

Gustavo: Mi nombre es Gustavo Javier Cañas, tengo 39 años, venezuelano.

JESSICA: GUSTAVO CHEGOU A CAXIAS FAZ APENAS TRÊS MESES, POR ISSO AINDA NÃO FALA PORTUGUÊS. QUANDO AS COISAS COMEÇARAM A FICAR DIFÍCEIS NA VENEZUELA E ELE DECIDIU DEIXAR O PAÍS, O BRASIL PARECIA UMA BOA OPÇÃO, ATÉ PORQUE TINHA CONHECIDOS AQUI QUE ESTAVAM BEM. A ESCOLHA POR CAXIAS FOI POR JÁ TER UM AMIGO NA CIDADE, A QUEM ELE TRATA POR IRMÃO.

Gustavo 2: Hablé con mi hermano que está acá en Caxias entonces él me dijo uno aquí es una de las ciudades donde están las empresas… hay empresas muy grandes Marco Polo, esta, esta la otra y hay bastante empleo me dijo hay bastante empleo y la ciudad es muy tranquila o sea no se ve esa delincuencia desbordada ni así tan tan fuerte, no se ve.

JESSICA: A SITUAÇÃO QUE ELE ENCONTROU EM CAXIAS É BEM DIFERENTE DO QUE HAVIA HÁ DEZ ANOS.

Gustavo: Y de verdad que me pareció muy bien acá, me ha gustado mucho Caxias, me he sentido bien Pude ver de que las personas acá son muy bondosas, les gusta ayudar mucho, los migrantes, eh eh también se siente ese apoyo como que el el hasta el mismo gobierno las instituciones te orientan mucho.

QUE EXISTE DESDE NOVEMBRO DE:

Suely: Então, a política pública do município, que passa a ser articulada, né, pela Coordenadoria de Promoção da Igualdade Étnico-racial, tá, em todos os demais setores do município.

JESSICA: ESSA É A SUELY RECH, DIRETORA GERAL DA SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA E PROTEÇÃO SOCIAL DE CAXIAS.

Suely: Então, essa articulação para o ingresso ou para o encaminhamento, para que esse imigrante se referencie num CRAS, num CREAS, na educação… para que ele… no Sistema Único de Saúde, todo esse trabalho, ele passou a ser articulado aqui pelo Município.

JESSICA: OU SEJA, A CIDADE TEM UMA LEI QUE FAZ COM QUE SE LEVE O IMIGRANTE EM CONTA SEMPRE QUE FOREM PENSADAS POLÍTICAS DE CULTURA, SAÚDE, EDUCAÇÃO, LAZER, ENFIM. RECENTEMENTE, A PREFEITURA TAMBÉM PUBLICOU UMA CARTILHA APRESENTANDO OS SERVIÇOS DISPONÍVEIS AOS RECÉM-CHEGADOS EM PORTUGUÊS, INGLÊS, ESPANHOL E FRANCÊS. E, EM PARCERIA COM A UNIVERSIDADE DE CAXIAS, ESTÃO SENDO LEVANTADOS DADOS PARA TRAÇAR O PERFIL ATUAL DOS IMIGRANTES DA CIDADE.

Suely: Acho que a partir do momento que você consegue identificar qual é o perfil desse desse imigrante, você consegue ser mais efetivo. Inclusive, na política pública, né?

JESSICA: RECENTEMENTE, FOI FEITO UM MUTIRÃO PARA REGULARIZAÇÃO DE DOCUMENTOS EM PARCERIA COM A POLÍCIA FEDERAL. FORAM QUASE MIL PESSOAS ATENDIDAS E TODOS OS PROCESSOS FORAM DEFERIDOS. UM DOS BENEFICIADOS FOI O PRÓPRIO GUSTAVO.

Gustavo: A pesar del poco tiempo de los dos meses y medio nos está yendo bien y también porque tuvimos la suerte de poder sacar los papeles muy rápido.

JESSICA: O COMÉRCIO AMBULANTE NA CIDADE, MAJORITARIAMENTE PRATICADO POR SENEGALESES, TAMBÉM FOI REGULARIZADO E TÊM SIDO DISPONIBILIZADOS ESPAÇOS CONCENTRADOS PARA ISSO.

Suely: Todo esse processo de organização do comércio ambulante, ele foi feito em conjunto: município de Caxias do Sul, mas com as lideranças, com liderança de senegaleses.

[TRANSIÇÃO]

JESSICA: LEMBRA LÁ DO INÍCIO DO EPISÓDIO, QUE EU TENTEI ENTRAR NO MUSEU QUE TEM NO MONUMENTO AO IMIGRANTE E NÃO CONSEGUI? DEPOIS, EU ACABEI ENCONTRANDO NO YOUTUBE UMA REPORTAGEM DA TV C MARA DE CAXIAS JUSTAMENTE SOBRE ELE.

Repórter: Para além dos europeus que vieram pra cá em busca de uma vida melhor, o museu também relata quem já vivia nas terras da futura Caxias, como o povo indígena Kaingang. Diferente do que muitos podem pensar, tanto o museu quanto o próprio Monumento Nacional ao Imigrante não representam apenas os italianos que vieram para o Brasil.

JESSICA: QUEM DIZ ISSO É O REPÓRTER DA TV C MARA DE CAXIAS LUCA ROTH. A REPORTAGEM TAMBÉM TEM ESSA FALA AQUI, DA HISTORIADORA E MESTRE EM EDUCAÇÃO FERNANDA BERTOLDO, QUE TRABALHA NO MUSEU:

Fernanda Bertoldo: O movimento que hoje a gente tenta instaurar neste espaço é trazer todo público que faz parte deste corpo social pra que se sintam também representados neste espaço, que sobretudo não é só nosso, não é só teu, é de todos. E precisa existir de fato uma representação que conte um pouco da trajetória de cada uma das etnias que aqui esteve, que contribuiu pra que Caxias e pra que o Brasil e pra que o nosso estado fosse hoje o que é.

JESSICA: DEPOIS DE OUVIR TODAS ESSAS PESSOAS, EU POSSO DIZER QUE A MÁ IMPRESSÃO QUE EU TIVE DO MONUMENTO E DA PRÓPRIA CAXIAS DO SUL, PASSOU. E ACHO QUE ESSE DISCURSO SOBRE CONTEMPLAR TODAS AS ETNIAS NÃO É SÓ DISCURSO, ELE SE CONFIRMA NA REALIDADE.

A CIDADE TEM UM APARATO CONSIDERÁVEL PARA DAR CONTA DAS DEMANDAS DOS IMIGRANTES E HOJE INCLUSIVE É REFERÊNCIA NESSE SENTIDO PRA DEZENAS DE MUNICÍPIOS DA REGIÃO.

MAS É IMPORTANTE NÃO ESQUECER QUE NADA DISSO VEIO DE GRAÇA E É FRUTO DA AÇÃO DE PESSOAS COMO BILLY, DEMBA, BINETOU E TANTOS OUTROS QUE ESCOLHERAM CAXIAS DO SUL COMO CASA. ASSIM COMO DE CAXIENSES COMO A PRÓPRIA IRMÃ MARIA DO CARMO. ELA, ALIÁS, PENSA QUE A CIDADE AINDA PODE IR MAIS LONGE.

Maria do Carmo: Acho que todo o potencial que os imigrantes têm de auto-organização, ele ainda não é tomado em conta.

JESSICA: AGORA, UMA DAS PRIORIDADES É INVESTIR EM PROJETOS CULTURAIS E EVENTOS QUE PROMOVAM O ENCONTRO DOS CAXIENSES QUE NASCERAM OU ESTÃO HÁ MAIS TEMPO NA CIDADE COM OS CAXIENSES DE CORAÇÃO, COMO ME DISSE A SUELY RECH.

Suely: Porque eu penso assim que o movimento migratório, da mesma forma em que eles aprendem a nossa cultura, a cultura de cada uma, de cada uma dessas… ela é muito rica. Então, essa essa troca eu vejo, assim, como um legado, eu vejo como um legado, né a história de vida, né, de cada um, a sua cultura tanto a cultura, na arte na vestimenta, na culinária.

JESSICA: PORQUE, COM ESSE TIPO DE TROCA, TODO MUNDO SÓ TEM A GANHAR.

Suely: E eu acredito que, isso, com o passar do tempo, ela vai estar inserida naturalmente dentro da nossa população como um todo. E que a gente… não, não a palavra não é segregar, mas que a gente não separe, que isso naturalmente seja absorvido por toda a nossa comunidade.

JESSICA: PRODUZIR ESSE EPISÓDIO ME DEIXOU COM A SENSAÇÃO DE QUE CAXIAS DO SUL SE TRANSFORMOU DE VERDADE. UMA TRANSFORMAÇÃO NO SENTIDO DE ORGULHOSAMENTE SEDIAR O ÚNICO MONUMENTO NACIONAL AO IMIGRANTE DO BRASIL. ISSO GRAÇAS À AÇÃO DO ESTADO, DA COMUNIDADE E, PRINCIPALMENTE, DOS PRÓPRIOS IMIGRANTES.

[…]

HELÔ: JESSICA, ESSA HISTÓRIA ME EMOCIONA MUITO… PORQUE A GENTE VÊ QUE OS IMIGRANTES SÃO TRANSFORMADOS PELA CIDADE PRA ONDE ELES MIGRAM. MAS, TAMBÉM TRANSFORMAM ESSAS CIDADES. E CIDADES SÃO COMO UM CORPO VIVO NÉ, ESTÁ SEMPRE SE TRANSFORMANDO.

MAS MAS… DIFERENTE DE UM CORPO VIVO, AS CIDADES NÃO MORREM. OU PELO MENOS NÃO MORREM TÃO FACILMENTE. E A MINHA IMPRESSÃO É QUE A DIVERSIDADE DE GENTE E DE CULTURAS SÃO UNS DOS ALIMENTOS QUE MANTÊM AS CIDADES VIVAS E MUITO VIVAS!

TALVEZ AGORA A POPULAÇÃO DE CAXIAS DO SUL E DO BRASIL INTEIRO PRECISE ACRESCENTAR OUTROS CORPOS AO MONUMENTO NACIONAL DO IMIGRANTE… OU CRIAR UM OUTRO MONUMENTO. FICA A DICA

EU QUERO AGRADECER AO FERNANDO LEVINSKI QUE ENTREVISTOU A BINETOU E O GUSTAVO, E TAMBÉM ENTREVISTOU PESSOAS NAS RUAS DA CIDADE DE CAXIAS DO SUL. FERNANDO, MUITO MUITO OBRIGADA! VALEU ESSA PARCERIA CONTIGO.

E MUITO OBRIGADA JESSICA POR TRAZER ESSA HISTÓRIA ATÉ OS NOSSOS OUVIDOS.

JESSICA: EU QUE AGRADEÇO, HELÔ, PELA OPORTUNIDADE DE CONHECER ESSA HISTÓRIA. QUERIA AGRADECER TAMBÉM A TODO MUNDO QUE TIROU UNS MINUTINHOS PRA FALAR COMIGO PRA QUE ESSE EPISÓDIO FOSSE FEITO. E, ALÉM DO FERNANDO, LÁ DE CAXIAS, MANDAR UM OBRIGADA AO ADRIANO PISTORELO E AO GABRIEL SCALABRIN, DO CAM, QUE TAMBÉM ME AJUDARAM E AO MEU AMIGO VICENTE CARDOSO, QUE FOI COMIGO A CAXIAS DO SUL.

CRÉDITOS:

ESSE EPISÓDIO FOI PRODUZIDO POR MIM HELOIZA BARBOSA E JESSICA ALMEIDA COM ASSISTÊNCIA DE VINICIUS LUIS

O ROTEIRO FICOU POR CONTA DE JESSICA ALMEIDA

COM ASSISTÊNCIA DE ROTEIRO DE VINICIUS LUIS, HELOIZA BARBOSA, E VALQUIRIA GOUVEA

ENTREVISTAS NA RUAS DE CAXIAS FEITAS POR FERNANDO LEVINSKI

EDIÇÃO FOI DE JESSICA ALMEIDA E PAULO PINHEIRO

MÚSICA ORIGINAIS DE PAULO PINHEIRO E MÚSICAS ADICIONAIS DE BLUE DOT SESSIONS

MIXAGEM E DESIGN DE SOM DE PAULO PINHEIRO

ILUSTRAÇÕES E ANIMAÇÕES DE NATÁLIA GREGORINI E VINICIUS CRUZ

A MIDIA SOCIAL DO FAXINA ESTÁ SENDO CUIDADA POR NICK MAGALHÃES

ESSE EPISÓDIO TAMBÉM USOU ÁUDIOS DO CANAL DE YOUTUBE DA TV C MARA DE CAXIAS, E DE UMA TRADICIONAL FESTA SENEGALESA.

Produção: Heloiza Barbosa e Jessica Almeida

Roteiro e Edição: Jessica Almeida

Assistência de Roteiro: Vinicius Luis, Heloiza Barbosa e Valquiria Gouvea

Trilha sonora original: Paulo Pinheiro

Trilha Adicional: Blue Dot Sessions,

Mixagem e Design de Som: Paulo Pinheiro

Ilustrações e Animações: Natália Gregorini e Vinicius Cruz

Mídia Social: Nick Magalhães

Esse episódio usou áudios do canal de YouTube da TV Câmara de Caxias e de um festa tradicional Senegalesa.

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